UM PRATO DE LEMBRANÇAS
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Victor F. Campos
7/15/20263 min read


Lhes confesso que nunca fui entusiasta de fast food, primeiro que de fast não há nada. As tais lanchonetes que possuem esse rótulo vivem lotadas de adolescentes e crianças que arrastam seus pais pela manga da camisa para dentro em busca de uma generosa dose de açúcar e gordura saturada. E segundo que não é food. Ao menos não do ponto de vista biológico que classifica como comida os alimentos in natura. De natural, nem o cabelo da atendente!
Abandono rapidamente a ideia de almoçar algo saído daquelas cozinhas barulhentas e engorduradas, desço as escadas e ganho a calçada em busca de algo que apazigue minhas entranhas. Fico por um minuto indeciso sobre qual rumo tomar. Comer em algum local já conhecido, ou quem sabe beliscar um lanche frugal na padaria da esquina, penso por um átimo e resolvo deixar o frêmito do vento me levar, saio caminhando e logo viro a esquina sinto o aroma inconfundível que só a mescla de tempero grudando no fundo da panela e carne podem produzir, como um sabujo vou sendo guiado pelo que farejei até chegar, uns passos à frente, em um pequeno cômodo de entrada única, sem placas, de não mais que doze metros quadrados.
No interior clientes se acomodavam em duas pequeníssimas mesas, outros, em pé, aguardavam com educação inglesa seus pratos ficarem prontos para levar. O silêncio era rompido apenas pelos constantes apitos das panelas de pressão. Contínuos, operários, secretárias, enfim, toda a mão de obra da região parecia se reunir ali ao badalar das doze horas. Duas cozinheiras com cara e jeito de cozinheiras (quem é, sabe), se dividiam entre o servir e o atender. Uma me lançou, à socapa, um desconfiado olhar assim que cheguei. Me dirigi até o apertado balcão, o cardápio restava escrito em uma folha ainda não destacada de um caderno. Quatro opções (para que mais?) Todas com o mesmo acompanhamento, dentre elas, a carne assada que havia fariscado no lado de fora da pequena cantina. Uma para levar, por favor!
Belíssimo pedaço de traseiro bovino envolto em espesso molho com batatas coradas acompanhava um fresco baião de dois. A tiracolo, salada e farofa do dia. Comida de verdade feita por gente de verdade. A cada garfada uma prece para que aquele alimento se multiplicasse no vasilhame de isopor, a cada prova acessava fragmentos da infância pendurados no museu da memória. A panela de pressão de minha avó que estava sempre a fumegar quando eu açodado chegava da escola ávido por qualquer alimento que fosse, lançava longe o surrado par de tênis e corria para a mesa com as mãos semi-lavadas implorando por sua comida cheia de candura. Comida de vó é imbatível. Quando aos fins de semana visitava minha avó materna sempre lhe pedia que me preparasse seu bolinho de piracuí, uma iguaria da qual não me esqueço nunca! Farinha de peixe salgado misturada em purê de batatas imersos em óleo quente com o carinho e dedicação que só os grandes artistas depositam em suas obras. A iguaria preparada por aquelas senhoras me trouxe de volta o sentimento que toda a minha geração, as vezes sem saber, vive a procurar, a sensação de estar novamente em casa. A confortável sensação que transcende o simples alimento disposto em um prato e alcança o paladar da alma, como se cada garfada trouxesse o desvelo de quem o preparou.
Em um momento da existência em que as grandes redes se espalham focadas tacanhamente só no lucro, em que os temperos processados dominam as prateleiras, em que o artificial abre ligeira vantagem do natural, essas pequenas “portas” despontam como salvação e resistência nos servindo um lauto banquete de recordações. A elas, vida longa!
Há alimentos que esteiam não só o corpo, mas também o espírito.