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UM HOMEM CHAMADO FRANCISCO

Descrição do post.

Victor F. Campos

1/6/20265 min read

Raramente tiro férias. Tenho e sempre tive uma grande dificuldade em lidar com o fato de me ausentar do meu ofício, mesmo a paralisação anual do poder judiciário que sempre ocorre entre os dias vinte de dezembro e seis de janeiro não faz frente a minha vontade constante de estar na minha mesa, produzindo, atendendo meus clientes ou, o que é mais comum nesse período, estando de prontidão caso alguma demanda venha a surgir. Este arremedo de cronista gosta de seguir certos rituais e é cheio deles, mas esse ano resolvi não trabalhar no recesso e me impus um breve autoexílio na região do salgado ao lado da família, aliás, a crônica de hoje seria exatamente da minha perspectiva de tudo que ocorreu nesses dias em Salinópolis, mas a vida findou por escolher um outro tema.

As primeiras horas do segundo dia do ano foram um suplício, mesmo com o cansaço de algumas horas de estrada do dia anterior e do bom incentivo de algumas ampolas de puro malte o sono profundo não vinha, o espaço parecia pequeno demais, ora o frio aplacava e minutos depois o calor, enfim, não grudei os olhos. Por volta das quatro horas da manhã joguei a toalha! “Desisto”! Exclamei quase acordando a casa toda. Aceitei que o sono não viria e aproveitei para ver o dia nascer com calma, abri levemente a janela da sala de banho na esperança de ouvir o canto de algum pássaro, ou a chuva caindo, qualquer coisa que trouxesse um pouco de paz para aquele cenário de aflição. Nada adiantou.

Dia já amanhecido, enviei aos meus pais minha habitual mensagem que inaugura todos os nossos dias, porém dessa vez a resposta de minha mãe fez o estômago embrulhar, “bom dia filho, o chico faleceu nessa madrugada”. Não sou sensitivo, muito menos médium longe disso, mas todos nós sabemos quando algo errado esta prestes a ocorrer, talvez nem todos consigam perceber, mas a vida deixa rastros claros, nesse caso, os sinais estavam cristalinos.

Francisco, ou melhor, Chico, como o chamava desde que aprendi a falar, era um grande personagem da família, pequeno e franzino como todo bom gigante era uma daquelas figuras que parecia não ter passado e nem futuro, só presente. Primo de meu pai e meu primo em segundo grau sempre me declinou o tratamento de sobrinho, mas muito mais do que isso, o de amigo. Fomos vizinhos próximos por quase toda a minha adolescência e alguns anos já da vida adulta e digo próximos na acepção máxima da palavra já que por alguns anos havia uma janelinha alta, quase encostada no pé direito da cozinha da nossa casa que dava para a cozinha da casa dele. E era por ali que o escambo ocorria.

No menor sinal de cheiro, fumaça ou abrir de latinhas aos fins de semana, de um lado ou de outro da janela, um tira gosto qualquer brotava entre as laminas de vidro do pequeno basculante. De pronto, por óbvio, era correspondido com uma ou duas Tijucas Pilsen (sua preferida da qual eu detinha um estoque) na temperatura certa! Como dita o manual. Quando o prato era mais trabalhado (odeio a palavra “gourmet”!) e a janela não satisfazia a transação, dávamos a volta e íamos bisbilhotar in loco o que o outro estava preparando. Pequenos salgados, filés com fritas, iscas de peixe e camarões, além da Tijuca, eram personagens sempre presentes nos nossos papos pela janela.

Todos os anos era dele a aclamada feijoada que eu servia para assistir o derradeiro jogo da liga dos campeões em uma reunião de amigos que sempre ocorria. Sempre que pedia a ele para fazer, ele retrucava dizendo que eu que deveria fazer já que era tão bom nas panelas quanto ele. Quem dera Chico, quem dera! A briga maior era quando eu tentava pagar pelos serviços, ele nunca aceitava, mas sempre declinava com elegância para não me constranger. Certa feita, esse gênio da raça, salvou a minha pele de uma grande gafe quando um amigo decidiu de supetão ir almoçar em casa sem que eu estivesse apto a recebe-lo. Chico rapidamente me deu acesso ao seu acervo de quitutes e acepipes congelados e salvou o dia me permitindo servir um lauto almoço ao querido amigo.

Bem-humorado, exímio cozinheiro e companheiro de copo, Chico era um desses espécimes que a gente não cansava de ter por perto. Gosto refinado para música brasileira, suas seleções embalavam nossas bebedeiras, fã incontestável do carnaval carioca, se aboletava na poltrona para ver os desfiles até a última escola passar na avenida, mesmo cochilando aqui e ali, garantia que não perdia nunca os highlights do maior espetáculo do planeta.

Após o falecimento da minha tia que era sua mãe, e do nascimento do meu filho eu e Chico mudamos de Cep e nossos encontros passaram a ser mais esporádicos. Quando ia a casa dos meus pais vez ou outra o encontrava no sofá, pernas cruzadas, sempre acompanhado de sua pequena pasta, seu já surrado boné e seu inseparável maço de cigarros. Proseávamos sempre sobre os recentes pratos que havíamos preparado, sobre futebol e sobre a vida. Fico feliz que ele tenha tido tempo de conhecer o meu João e de ter desfrutado por tanto tempo da companhia desse ser humano formidável. Os cep’s mudaram, o sentimento nunca mudará!

Em nosso penúltimo colóquio ele me prometeu um arroz carreteiro, eu me prontifiquei a provar e dar a nota, porém confesso que acabei esquecendo. Pois não é que o cabra fez mesmo o arroz, me ligou e disse que havia deixado na casa dos meus pais. Pois bem, eu nunca provei o tal arroz, irresistível e perecível que era, foi logo devorado pelos integrantes da casa sem que eu pudesse sequer sentir o cheiro. Não pensem mal dos meus pais, a culpa é toda minha, demorei demais a ir e achei que ainda teria muitas oportunidades de provar a comida, tomar umas e gastar a palavra com ele. Pois bem, não tive.

No nosso último encontro, algumas semanas atrás, eu vinha caminhando meio apressado, passei por ele quase que batido, ele me chamou, eu voltei, “fala grande Chico”, exclamei. Ele riu, cigarro entre os dedos, perguntou: “Sabes se o correio ainda esta no mesmo lugar?”. Sorri por achar estranha a pergunta, respondi com bom humor dizendo que não sabia e segui meu caminho, quem dera que pudéssemos saber quando vai ser a última vez...

Mas essa crônica não terminará triste, Chico não gostaria que fosse assim, o sorriso que ele orgulhosamente ostentava não se agradaria de um final melancólico. Para onde ele foi não existe mais a necessidade de correios, se lá existisse serviço postal, enviaria a ele esta crônica com o seguinte bilhete ao final: “Obrigado por tudo grande Chico, um dia a gente se encontra de novo, preparas o carreteiro que dessa vez eu prometo provar, as tijucas serão por minha conta!”. Certamente eu lhe arrancaria um sorriso.

Descanse em paz velho amigo.