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SALINAS, INFÂNCIA E AS PIRÂMIDES

Descrição do post.

Victor F. Campos

6/9/20262 min read

O léxico define hábito como uma ação, comportamento ou atitude que se perfaz em automático devido à repetição constante. Não sei dizer quando adotei tais hábitos, ou melhor, quando precisamente tive minha rotina por eles invadida, vez que não os escolhi. Por certo, nasceram em algum recorte da infância quando mais por espelhamento que por consciência eu já emulava e repetia as ações de meus tios e de meus pais ao pousar em Salinópolis no final do século passado. 

Os egípcios possuem um mantra que afirma que os homens temem o tempo e o tempo teme as pirâmides. Enquanto vagava pelas quase desertas ruas do município durante o feriado essa frase restou incutida em minha cabeça. Perecíveis que somos, por óbvio, tememos o tempo e seu escoar. Especialmente quando o escoamento parece ocorrer com surpreendente agilidade. Mas as pirâmides não carecem de se preocupar com o tempo. A grande pirâmide de Gizé, por exemplo, já conta com mais de quatro milênios de idade e não tem ressalvas quanto a vazão da ampulheta, a ignora de forma resoluta.

Em meio século é provável que muitos de nós já tenhamos encontrado o descanso eterno, mas as pirâmides permanecerão em seu lugar de observação. Nos resta então construir vezos e sentimentos que reverberando em nossos descendestes, amigos e conhecidos se perpetuem mesmo após nossa ausência mundana. E não se preocupem, não estou falando daquela baboseira clichê de plantar uma árvore, escrever um livro, criar uma cápsula do tempo... não! Nada disso! A árvore pode secar e morrer ou ser cortada e virar um belo móvel ou fogueira, o livro perdido, a capsula do tempo enterrada e esquecida.

Falo do intangível, do incalculável, hábitos, memórias, tudo aquilo que plantamos no outro e que nele florescerá e frutificará décadas a dentro sem que lhe possa ser tirado. 

Tomar a primeira cerveja sozinho, em silêncio, observando o reflexo do sol no vai e vem da maré, ir sempre muito cedo ao mercado e comprar os mesmos insumos e produtos das mesmas pessoas. Pegar o cheiroso pão fresquinho da fornada das seis horas da manhã, cozinhar miríades de mariscos para serem degustados em mesa farta junto da família ou ainda na praia sob o sol escaldante, tudo isso não se iniciou em mim, mas sim, foi em mim cultivado por gerações anteriores a minha. O cultivo foi tão profícuo que desses costumes não consigo mais me afastar de modo que caso não os faça, findo por sentir não estar sendo eu mesmo, ou melhor, é como se estivesse traindo a memória daqueles que copio. Logo, sinto que deles não me afastarei nunca e os reproduzirei até o postremeiro momento de minha vida.

Agora, meus caros, me permitam hoje encerrar mais cedo, enquanto escrevo, meu filho me chama para ir à praia e me lembra que ainda precisamos parar no “nosso amigo geladão” (alcunha dada por ele ao comerciante que nos vende gelo há anos) para comprar gelo e sua tão querida água de coco.

Já vou indo, tenho pirâmides a construir.

Ps. Perdão judicial para o que omite socorro, assume o risco e concorre para a consumação do delito pode?

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