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SALINAS DOS MEUS SONHOS

Descrição do post.

Victor F. Campos

7/23/20263 min read

A bem da verdade nunca a idealizei, sempre a tive pelo que é, ou pelo que fora, um lugar castiço e profano. Não possuo a pretensão de ser dela cronista oficial, prefiro ser seu biógrafo não autorizado. Frequentador que sou desde a infância insculpi em sal em areia lembranças tão perenes quanto suas marés. Salinas dos meus sonhos não é uma metrópole idealizada e utópica onde tudo funciona, estamos no Norte, mas não somos um país nórdico, deixemos esse ideal de perfeição enfadonho para eles.

O sonho, sempre é o de não voltar. Mas não para ficar ad eternum, afinal, vir, é o que mantêm acesa a chama da volta. Longe de ser uma quimera o desejo é palpável e talvez seja isso que o torne tão atraente. A pretensão insolente de ficar só por mais um dia e quem sabe ir ficando é o que preserva as núpcias dos apaixonados, como eu, com a cidade. Ficar para mais um último mergulho, para mais uma dose, para mais um porre, para mais um pôr do sol....

Salinas tem um tratado não verbal com a eternidade. Tudo quanto maresia, sol e pele queimada escreveram ficará gravado calidamente em cada um que ali já passou ou viveu. Paixões indolentes de verão, rompimentos, alumbramentos, descobertas, primeiras vezes tudo sendo consumado ao mesmo tempo sob a sigilosa luz da lua ou mesmo sob o sol escaldante que o verão paraense oferta de forma ímpar.

Se Belém, como muito bem escreveu o compositor da terra Marco André, não é nem bela e nem formosa, mas sim uma cabocla desajeitada e pequenina, Salinas é o perfeito oposto, é cabocla de sangue quente, pele morena e corpo escultural com os cabelos aloirados pelos raios do astro rei. Mulher mandona e de personalidade forte, impõe a nós sua própria rotina. Nos oferece, logo cedo, o que há de melhor da vida marinha logo ali em sua costa. Lagostas, mexilhões, camarões, peixes, um verdadeiro banquete do atlântico, cujo o cheiro do preparo invade todos os compartimentos das casas e desperta aqueles que ainda se recuperam da noite anterior. Preparo esse, claro, sempre regado a bom whisky, ou a bebida que melhor lhe aprouver, nesse ponto, a cidade não é exigente, pede apenas que a desfrute sempre inebriado por bons aditivos.

Repasto preparado, seguem todos para suas praias, sem que se possa escolher ir ou não, como um movimento natural quase instintivo a manada se direciona para a faixa de terra que antecede o mar. Ali, espremidos, entende-se que caráter é um móvel delicado, os sentidos se apuram, a sede aumenta, encontra-se amigos, celebra-se a vida. Canalhas em suas mansões a beira mar fecham acordos escusos sob a vigília das bolhas de Dom Perignon enquanto, lá em baixo, adolescentes cometem crimes menores dirigindo, bebericando e fumando um. Mas ninguém parece se importar, todos estão ocupados demais vivendo e desfrutando seu próprio verão interior. É a felicidade com o fim em si.

A noite cai, os menos experientes e os desprovidos de elegância se aboletam entre paredões sonoros e festas de quinta categoria enquanto a maré cumpre seu papel e sobe perigosamente. Não os culpo, já tive meus dias de ingenuidade e euforia. Já os mais calejados retraem suas tropas para a beira da piscina e para o abrigo de casa. No crepitar do fogo na churrasqueira acesa as vozes se elevam, o riso é farto, penúltimas doses são consumidas ladeadas por pratos generosos de comida devorados com o apetite que só um dia de praia é capaz de trazer.

Aos poucos, a noite vai silenciando, as camas começam a ser ocupadas, o álcool e o cansaço assumem a dianteira, os segredos de Salinas começam a ser escritos.

No dia seguinte, como presos em um looping temporal, tudo recomeça, o fígado já combalido reclama, a epiderme urge por alívio refrescante e os lábios anseiam por água gelada. Mas nada nos impede de repetir o dia, nada nos faz ter um dia normal. Afinal, Salinas é a cidade que terminantemente rejeita a mediocridade.

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