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O QUE É BOM VEM LÁ DE FORA

Victor F. Campos

1/27/20263 min read

O sábado começou cinzento, nublado, aquelas manhãs em que o corpo implora por mais alguns minutos de conforto e agasalho. Não para mim. Fui logo cedo retirado, por mulher e filho, do meu quartel entre às cobertas. Muito a contragosto e sob protestos fui arrastado a tomar café da manhã fora, o local: mercado de São Brás! Ao pousar nas cercanias da centenária edificação descobri que as atrações mais sofisticadas do mercado só abrem as 10h, e isso lá é hora de mercado abrir, pensei! Mas não havia problema, fomos mesmo em busca do cafezinho raiz, caseiro, feito pelas boieiras. Só de sentir o cheiro do café passado na hora e de ouvir o barulho das dezenas de tapioquinhas sendo reviradas nas frigideiras vaticinei: meu mal é fome!

Rapidamente nos acomodamos em uma das muitas e confortáveis mesas dispostas nos arrabaldes das cozinhas abertas. O café pedido logo chegou, crocantes e quentinhos pães na chapa e tapioquinha caseira acompanhados de um fumegante café e dois dulcíssimos achocolatados compuseram nosso farto desjejum. Quando achei que não poderia ficar melhor, descobri, ao pedir a conta, que a robusta refeição não me custaria sequer uma onça! Fato raro em Belém. Conta paga, seguíamos para o carro quando meu guri manifestou interesse em comprar algumas acerolas, seu fruto preferido. Ora, se já estamos na feira, a hora é agora. Adentramos o reformado prédio na área destinada aos feirantes e ali qualquer resquício de mal humor que eu ainda poderia ter se esvaiu instantaneamente.

Pequenas barracas conjugadas, uma mais farta que a outra, ornam os estreitos corredores da ala das frutas e verduras, andando mais à frente a seção de carnes, peixes e mariscos oferece show à parte. Belíssimos maços de cheiro verde, tomates, pimentinhas, pitaias, mangas e acerolas fresquinhas despontam das bandejas. No açougue, bistecas e costelinhas mingas me fizeram salivar ao imaginá-las preparadas no braseiro. Mais ao fundo do corredor, camarões secos e frescos, patolas de caranguejo e polpas de mexilhões cintilantes quase me fizeram mudar toda a programação do dia para me enfurnar na cozinha e preparar um arroz de mariscos de respeito! O calor humano, o barulho dos feirantes anunciando seus produtos e a miscelânea de cheiros me transportou para tempos mais fáceis e mais felizes.

Comprei tudo que precisava, mas nem tudo que queria. Sai feliz com a grata surpresa de ver um espaço público como esse funcionando tão bem, com matérias primas de excelência acessíveis a todos. Deixei as compras em casa e resolvi comer um peixe no Bira’s bar – peixe frito, o lugar mais honesto de Belém e com o melhor peixe. Fica ali na 14 de março, só tem um garçom e só serve um prato, pasmem, peixe frito! Quer mais honestidade que isso? Sem nomezinho gourmet, sem frufru, apenas filé de dourada, farofa e molho vinagrete, tem coisa melhor? Sento a mesa e peço ao solitário e circunspecto garçom que me empreste uma caneta e me traga uma Cerpa estupidamente! Puxo do bolso um pedaço de papel e passo a rabiscar essa crônica.

Pensando longe reflito sobre como não damos o devido valor a nossa capital. Nem nós nem os políticos. Diante da riqueza das experiências que vivi e aqui narrei chego a me revoltar com a forma que tratamos a nossa cidade. Não que ela não precise de inúmeras melhorias, longe disso, mas certamente precisa ser melhor apreciada e cuidada também por nós.

Nas redes sociais conhecidos postam fotos do incomível (sob pena de deslocamento de maxilar) sanduiche de mortadela do mercado de São Paulo como se fosse uma iguaria. O mal montado pastel de bacalhau também é sempre um destaque entre os incautos. E não vou nem falar do roubo que é comprar qualquer fruta que seja por ali, eu mesmo já fui vítima. Ver esses locais ganhando, por mãos paraenses, mais destaque que os locais que aqui citei me causa espécie. Somos muito mais ricos em produtos e insumos e cozinhamos com muito mais amor, talvez, o que esteja havendo seja uma crise coletiva de referências. Bráulio Bessa estava certo, quem esquece de onde veio, não sabe para onde vai.