O PASSAGEIRO
Descrição do post.
Victor F. Campos
5/12/20263 min read


Ele olha mais uma vez pela janela e observa inquieto as gotículas de umidade traçando um rápido caminho entre a minúscula ventana e a fuselagem da aeronave, o solo parece cada vez mais próximo. Tenta, em vão, controlar o tremor das mãos e as ondas de ansiedade que, sem convite, chegam e tomam de assalto seu sistema nervoso. Já não há mais sinal da equipe de bordo pelos corredores, estão todos sentados em seus lugares, cinto afivelado, expressão calma, confiam no comandante. Mas ele não, ele não confia no comandante, não confia em comissários de bordo, não confia em um amontoado de plástico e aço suspenso a trinta mil pés. O avião sofre um forte solavanco como se passasse sobre uma lombada a toda velocidade, as máscaras de oxigênio despencam sobre os passageiros. O pânico se instaura.
Do alto falante do veículo aéreo a voz esbaforida do copiloto solicita que todos coloquem suas máscaras e permaneçam com o cinto afivelado, um estalo metálico encerra a comunicação. Ele olha uma vez mais para a janela, o solo parece ter se aproximado um pouco mais.
Olha para sra. de cabelos brancos sentada ao seu lado e pensa como diabos ela pode estar tão calma. Como pode estar tão concentrada no terço que está rezando mesmo com os gritos que começam a ser ouvidos na parte traseira da seção de passageiros. Se ele ao menos tivesse mais fé, se tivesse prestado melhor atenção a explicação da comissária sobre como instalar no rosto aquela máscara, talvez conseguisse controlar suas mãos e respirar melhor. Se tivesse passado menos tempo trabalhando em um emprego que não gostava, se não tivesse discutido ao celular com a esposa horas antes do avião decolar, se tivesse ficado mais tempo com seu casal de filhos para construir mais memórias. Se!
Uma brusca mudança de altitude faz todos os integrantes do transporte quase grudarem as cabeças na parte superior do bagageiro. O barulho de gritos se acentua ainda mais. Ele tenta rezar, mas não consegue. Suas mãos chacoalham sem parar como as de um baterista profissional. Olha ao redor e não consegue ver nada além de medo e desespero nas pessoas que, como ele, estão condenadas ao confinamento naquele pássaro de aço. Sente vontade de gritar, mas do que adiantaria? Quem ouviria? Olha para sua gravata e vê uma mancha de refrigerante causada pelo balançar da primeira turbulência que aliás foi a causadora da interrupção do serviço de bordo e o marco inicial daquele calvário que todos estavam vivenciando. Pensa que sequer morrerá com a gravata limpa e isso lhe traz um leve sorriso ocasionado pelo terror e mau gosto do raciocínio. Afinal, o que sobraria da gravata? O comandante (enfim ele!) pede a tripulação e passageiros que se preparem para um pouso forçado no solo. Ele olha pela última vez pela janela. Os prédios e casas nunca estiveram tão perto.
A senhora ao seu lado fecha os olhos, os gritos cessam, o ar parece pesar uma tonelada. Ele imita sua companheira de poltrona, cerra suas pálpebras, lembra do abraço da sua esposa, do cheiro de suor e shampoo dos cabelos dos filhos, da sua infância ao lado de seus avós, pede aos céus apenas que não sinta dor.
Um ensurdecedor estrondo e um forte baque ocorrem, o avião se choca com o solo e se parte ao meio, seu desespero alcance seu ápice, involuntariamente entoa um urro gutural de pavor. Sua vista escurece.
A aeromoça timidamente toca seu ombro pedindo desculpas por acordá-lo, ele abre os olhos, ela lhe lança um encarnado sorriso de batom vibrante e lhe informa que o avião já pousou e que ele precisa desembarcar. Ele, aturdido e suado, pergunta se a aeronave de fato está no solo, ela diz que sim, e que o dia está lindo, aponta para os raios de sol que invadem a claraboia da fileira de cadeiras na qual ele se encontra solitário para provar seu ponto.
No salão de desembarque seus membros inferiores ainda tremulam, mas as mãos nunca estiveram mais firmes. Sente uma paz interior nunca antes sentida. A porta automática de correr se abre, uma luz intensa quase lhe cega, sob ela, sua esposa lhe espera com um sorriso aberto. Seus dois filhos correm para agarrar suas pernas. Ele não entende o que esta vivendo, não sabe mais o que é ou não realidade.
Foi seu último voo.