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O MENINO DA PRAIA

Descrição do post.

Victor F. Campos

5/5/20263 min read

O cronista anda desmemoriado, estou há dias tentando, sem sucesso, lembrar de seu nome. Recordo ter feito uma fotografia dele no intento de guardar sua história e publicar junto com um texto em um tempo em que escrever crônicas não era sequer uma ideia longínqua em minha consciência, mas como quase tudo hoje em dia os aparelhos celulares também são descartáveis e em um descarte a fotografia foi-se.

Sem ponta alguma de romance ou teatralidade sou obrigado a confessar que não rememoro sequer o que ele comerciava embora tenha adquirido a matéria. Evoco apenas de suas mãos desgastadas em demasia para tão pouca idade, de seu olhar cheio de esperança, de seu cabelo desgrenhado e ressecado fruto dos raios solares e da brisa salgada do litoral nordestino. Lembro de seu tímido constrangimento em interromper o jantar meu e de minha mulher como quem sabe que sua abordagem é inoportuna, contudo, vital a sua sobrevivência. Mesmo sob o estupefaciente efeito do álcool em meu sistema nervoso seu retrato nunca saiu da minha cabeça. Aquele menino, guerreiro menino, até hoje aparece em flash’s nas minhas elucubrações sempre que a viagem à Pipa/RN surge em minhas memórias.

Ontem, sugestivamente no dia primeiro de maio, dia do trabalho, sua gravura tornou a me visitar. Passados quase dez anos de nossa audiência rumino se ele ainda permanece vendendo seus produtos, dos quais não lembro, no quebra-mar da baía dos golfinhos ou se teria alçado voos maiores em sua vida. Espero que sim. Já não bastaria ter tido sua infância roubada pela exigência do labor imposta pela vida em situação de pobreza, faço votos de que ao menos o inicio de sua vida adulta tenha sido mais suave, mesmo que as probabilidades não apontem para esse lado. Isso se ainda estiver vivo, ou se não tiver sido cooptado pelas muitas facções criminosas que tomaram de assalto a região. Afasto o pessimismo e faço por ele breve prece lembrando mais uma vez do seu olhar cansado e esperançoso. Olhar do homem, do operário de forças exauridas pós expediente, olhar maduro que fazia refinado contraste com sua pouca idade. Sua idade, findei por não perguntar, mas assevero não passar da idade do meu filho atualmente e constatar isso fez meu estômago embrulhar. Meu filho que diviso agora mesmo enquanto escrevo, que nunca precisará trabalhar antes do tempo, que vive plenamente sua infância fazendo o que uma criança deve fazer, que nesse exato momento assiste seu desenho animado no abrigo seguro de sua cama.

A dicotomia contida nesta realidade me fez reverberar sobre todos os meus compatriotas que tiveram sua infância assaltada pela exigência do trabalho, que são forçados a viver na inópia em uma terra tão abastada que tão mal cuida dos seus trabalhadores, que não autoriza a grande maioria de seus cidadãos a escolher no que trabalhar, ou pior, quando trabalhar, pois, assevero com parcimônia que o garoto da praia não escolheu para sua infância ser um mascate ambulante, essa realidade lhe foi duramente imposta pelos desígnios da vida.

Como escreveu Gonzaguinha décadas atrás, “com a barra de seu tempo por sobre seus ombros” a única coisa que restou ao menino foi sua honra, a única coisa que resta a milhões de operários brasileiros em todas as faixas de idade é a sua honra. Com ela, e unicamente com ela, movem as engrenagens da nação com todas as odd’s adversas com o nobre escopo de trazer sustento aos seus. E assim de modo escorreito o fazem. Para ter em um dia no ano, um insuficiente dia de descanso e homenagem para o corpo e para o espirito, um dia de louvor e ode ao vosso trabalho.

Na pessoa do garoto de pipa, desejo a todos os meus leitores e leitoras um feliz dia do trabalho, mesmo sem termos muito a comemorar.

Ps. Por culpa de todos vocês chegamos na crônica de número vinte. Semana que vem estaremos de casa nova. Obrigado. Até!

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