O JORNALEIRO
Descrição do post.
Victor F. Campos
4/28/20263 min read


Me aventurava em mais uma das vãs tentativas de inaugurar uma vida mais regrada com a prática de exercícios físicos quando passei a encontrá-lo ao menos três vezes na semana sempre aos portões de minha casa onde pousava com seu automóvel de duas rodas como um arauto crepuscular e me trazia em papel imprensa ás notícias do dia anterior e da antemanhã. A bem da verdade, não costumávamos trocar mais do que meia dúzia de frívolas palavras, eu ainda sonolento e na penumbra da madrugada não lhe oferecia meu melhor sorriso e nem meus melhores modos, já ele, tendo como força motriz o hábito do oficio, de igual modo, parecia não demonstrar o menor interesse em prosear na cancela de um estranho às cinco horas da manhã e assim fechávamos nosso lacônico pacto de respeito mútuo.
Não chegamos a firmar amizade, sequer coleguismo, nossa interação era quase que puramente profissional, findava na entrega do periódico e no protocolar desejo de bom dia. Certa feita, em uma chuvosa madrugada daquelas em que lutamos para nos desvencilhar das garras de morfeu, saltei do meu repouso no intuito de desafiá-lo, era impossível ser pontual com aquele tempo. Me servi boa dose de cafeína fumegante e postado em meu abrigo isolado do temporal o observei chegar na hora de sempre coberto com um delgado capuz de chuva que de tão estreito quase se confundia com sua própria pele. Cuidadosamente envelopou o conteúdo de sua entrega, dobrou-o como um artesão, e cuidadosamente encaixo-o na caixa de correspondências.
Só o vi se atrasar uma única vez quando me fez a entrega no momento em que a luz do sol já iluminava a atmosfera superior, com meu cinismo habitual dei a ele um boa noite respondido já com a justificativa de que a demora havia partido da central de distribuição e não dele. Como questionar a versão de um jornaleiro experimentado?
Passei a nutrir profunda admiração por aquele sujeito com o qual não detinha nenhuma intimidade, nenhum laço, ainda que tênue, de amizade. As valorizadas relações profundas nos cegam para as medíocres, daquelas insculpidas na insignificância da rotina e que a bem da verdade não representam muito, porém trazem valor em seu bojo. Sou delas um grande entusiasta. Impossível não reconhecer a pontualidade e a constância de um pássaro madrugador que segue executando seu quase extinto oficio com profundo esmero trazendo toda sorte de notícias a lares por muitas vezes inférteis. Quantas boas e más novidades aquele homem já não transportou no seio enferrujado de sua bicicleta? Quantas pessoas, como eu, não o esperam para receber o encarte matutino? Encarte esse que logo após lido se transmuta em embalagem para mudanças, material para reciclagem ou ainda objeto de recortes para tarefas escolares infantis. Afinal, amanhã o conteúdo do documento já esta defasado, ultrapassado, novos acontecimentos se sucedem e o dinamismo da vida transforma nosso protagonista em um entregador de fatos descartáveis. Tive vontade de indaga-lo se ele ainda consumia o material que entregava, se lia as linhas que transportava, mas não havia tempo para perguntas e respostas, havia espaço tão somente para burocráticas saudações.
Vendo o desânimo em seu rosto trazido por décadas de exaustiva repetição laboral tive a vontade de contar a ele, como forma de reconhecimento velado, de um de seus pares, o último jornaleiro ambulante francês Ali Akbar havia sido condecorado pelo presidente do país como cavaleiro da ordem do mérito nacional em reconhecimento ao seu meio século de serviços prestados a população do bairro parisiense de Saint-Germain-des-Prés. Entretanto, não o fiz, não houve espaço e nem tempo.
Meu projeto de uma vida regrada e com exercícios logo pela manhã fracassou mais uma vez. O sol preguiçoso nem sempre aparece logo cedo. Apenas o jornaleiro, na tríade matutina do nosso cenário, segue diariamente cumprindo sua nobre e trivial tarefa não importa o que aconteça.
Ps. A partir do dia dez de maio, as crônicas serão publicadas também no jornal O Amazônico.