O HÁBITO FAZ O MONGE
Victor F. Campos
1/20/20263 min read


A cena já se repetiu umas duas ou três vezes. Aos domingos os ritos precisam ser obedecidos, a boa prática manda que ao menor sinal da alvorada a cama seja deixada para trás, água no rosto, dentes escovados, hora de sorver um cafezinho com leite acompanhado de suculento pão com ovos (muitas vezes fico só no café mesmo, confesso). Após um banho gelado para espertar os ossos visto o uniforme do boteco e do domingo: camisa do tricolor das laranjeiras, bermuda e sandálias havaianas, afinal na volta do mercado um rápido pit stop no bar de estimação faz parte do mandamento dominical. Pronto para o rito, consulto a família sobre o cardápio do almoço e tendo o definido parto rumo a feira ou, mais recentemente, para o supermercado e é lá que encontro o nosso protagonista de hoje.
Subo às escadas rolantes e logo ali, nos bancos dispostos na entrada do mercado esta ele cujo nome desconheço, sendo assim, o chamemos pelo nome do primeiro papa: Pedro! Cabelos alvos, óculos escuros, sandálias já gastas, sacolas com compras cuidadosamente enfileiradas no banco ao seu lado. Impávido e sempre solitário beberica uma cerveja zero álcool com a postura de um monarca. Passo por ele, aceno com a cabeça, o aceno é devolvido, um bom bebedor reconhece o outro, penso. Sigo para as prateleiras quase que esquecendo o que ia comprar, cabeça longe passo a fazer deduções sobre a vida do Sr. Pedro.
A primeira conclusão que chego é que nosso personagem foi em tempos idos um boêmio profissional! O cruzar de pernas, o jeito de segurar a garrafa e o ato de beber logo cedo já o denunciam. Concluo também que abandonou o álcool por alguma complicação de saúde, seu semblante e seus cabelos já anunciam sua idade, além disso, é seguro dizer que a tal complicação não o afastou das suas obrigações, muito menos da sua rotina. Deve ser daqueles que se candidata de pronto para fazer o mercado sabendo que ao cumprir com a tarefa assumida também poderá, em paz, tomar uma ou outra (ainda que zero álcool).
A solidão e o olhar de mil jardas que ele lança para o nada traduzem, sem dúvidas, a saudade das inúmeras ampolas esvaziadas no correr de sua vida, dos amigos de copo e quem sabe, dos amores que somou em seu caminho. Aos olhos mais descuidados aquela figura pode parecer só mais um bebedor apressado que não espera sequer o “sol esquentar” para abrir a primeira, ou pela melancolia que emana, um personagem de Dante Alighieri que avisa os que ali adentram que abandonem a esperança.
Eu prefiro ver o copo meio cheio, penso que é um homem que decidiu viver nos seus próprios termos e que embora não ostente mais a saúde e o carisma do grande bebedor que certamente foi se recusa a abandonar o que lhe foi caro a vida inteira. Acima de tudo, o denodado Sr. Pedro, é um sobrevivente das agruras da vida, do peso do tempo e do amargor da velhice. Segue fazendo o que o faz feliz, como da, do jeito que pode. Será que teremos a resiliência dele em seguir, no fim da vida, fazendo o que nos faz bem? Será que eu acertei em algo do que deduzi?
Paro de divagar e amealho minhas compras para o almoço não atrasar mais do que o normal, lembro que ainda irei ao boteco! Do caixa noto que o banco já resta vazio, nem sinal do Sr. Pedro, seu turno da manhã teria acabado ou fora beber suas Heineken’s zero álcool em outro lugar, me questiono. Em um desses domingos abro uma cerveja zero (ou não), sento ao lado dele, puxo assunto e como quem nada quer respondo as minhas e a suas perguntas caro leitor. Por enquanto, façamos o que nos faz bem!
Até!