O BALÉ DAS PALMEIRAS
Descrição do post.
Victor F. Campos
3/3/20263 min read


Publico por que gosto, escrevo, pois, preciso. Essa frase permeou as minhas reflexões durante toda a semana. Rotineiramente tento observar com olhar desvelado e acurado tudo quanto me rodeia e quando tenho a felicidade de alcançar o ponto máximo dos detalhes advindos da tal vigília ocorre o transbordo para a forma escrita. Em certa medida, de forma hermenêutica, esquadrinho meus próprios pensamentos de modo a aliviar a pressão da torrente de ideias que me tomam de refém quando algo rotineiro me toca e me comanda a escrita. Quando a pena mancha o papel, ou melhor, quando a pressão de meus dedos toca as teclas ocorre verdadeira extração do sumo de minhas ruminações. Por vezes nada me ocorre, afinal, como já dito, não sou nenhum gênio, e mesmo que nada me ocorra, o pretenso cronista tem seus macetes, suas fintas, se nada me baixa, escrevo sobre o nada e não se fala mais nisso. Porém, o perfeito contrário ás vezes se impõe e tomado por uma lufada de alumbramento recebo a crônica de uma vez só e a vomito sobre o papel. Foi o caso desta.
Minhas idas a Icoaraci, terra de meu pai, têm se tornado cada vez mais raras, fato que considero uma grande falha já que ali passei metade da vida tendo, portanto, raízes fortemente fincadas no lugarejo. No afã de corrigir tal pane de caráter, no domingo de carnaval, marquei com meus familiares de fazermos um assado na casa de meu pai. Ir até a casa de Icoaraci é sempre um passeio pela infância, chego dia logo amanhecendo e já apanho meu pai para nossa tradicional ida ao obnubilado mercado distrital, onde costumávamos ir sempre aos domingos durante toda minha infância e adolescência. Ali, adquirimos toda sorte de insumos. Bistecas, costelinhas, temperos diversos todos sempre frescos, pimenta moída na hora, e claro, para coroar a peregrinação, um pit stop na barraca da dona Conceição, amiga longeva da família, que já esta atendendo a nossa terceira geração.
Tudo comprado, é tempo de ir para casa e preparar a farta refeição em nosso terraço. Mesa posta, as carnes antes em tom carmesim agora começam a adotar a tonalidade dourada que indica estarem prontas para ir a mesa. Família reunida é sempre um convite para exageros gastronômicos e assim foi feito. Após o pantagruélico ágape um a um os integrantes da mesa passaram a deixá-la para aproveitar o banzo trazido pela comida e pelo clima. O céu cinzento e o chilrear dos pássaros buscando abrigo na copa das árvores indicava que tão logo o toró chegaria.
O chuvisco fino foi apenas um prefácio do aguaceiro que viria a cair logo depois, o vento uivava e a chuva chegou molhando todo o terceiro pavimento da nossa casa, onde meu pai e eu, os dos últimos sobreviventes, resistíamos bravamente desfrutando de um agradável momento a sós. O fogo da churrasqueira ainda crepitava e nos fornecia fonte deleitável de calor, sendo esse o máximo que um nortista chegará de uma lareira em solo próprio.
Ali observando o vento e a chuva, ao lado do fogo, o velho, que desconhece gestos desnecessários de sensibilidade (salvo com seu neto), silenciou nossa prosa, olhos fixos no horizonte, apontou para o norte e disse: - Olha ali os açaizeiros balançando, dançando, eu acho lindo isso. Por mais que digam que derrubá-los vai nos permitir ter melhor visão do rio, eu não quero ver o rio, quero ver os açaís dançando. Calou-se, eu também calei, apenas assenti com a cabeça e por mais de um quarto de hora ficamos ali, silentes, bebericando e admirando o balé daquelas palmeiras. Eu que tantas vezes deixo de enxergar o que está a minha frente por ser um aficionado pelo futuro, por ser um ansioso contumaz, um aturdido por esporte, eu que já derrubei açaizeiros e não gostei da visão do rio, naquele momento deixei o futuro de lado e aproveitei o presente, os açaizeiros e meu pai.