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MEMÓRIAS DE INSÔNIAS

Descrição do post.

Victor F. Campos

7/8/20263 min read

A brisa da madrugada é fresca, quase que totalmente pura não fosse pela fumaça negra expelida pelo motor a diesel de um caminhão solitário que acabará de passar em minha rua. Estou insone e nada mais me restou a não ser o desassossego da vigília da antemanhã. Os pássaros ainda não acordaram, não há ruídos, o mundo resta silencioso, ou ao menos metade dele, já que a outra metade ora iluminada pelo sol já cumpre seu dia. A madrugada é silenciosa, diferente dela, minha cabeça não. Rascunhos de uma nova crônica se confundem com as demandas pessoais e profissionais que irão urgir por resolução, logo ali, na quarta-feira. Muitas contas a pagar, nem tanto assim a receber, mas com a firmeza de que todas serão pagas, sem verdadeiramente saber de que modo as paguei até aqui. A revisão do carro, a viagem de férias com a família, o pênalti perdido por aquele meia sem personalidade, a constante indagação se estou sendo um bom pai, um bom advogado, um bom filho...

Além disso, uma melodia terrivelmente incômoda se repete incansavelmente em meus ouvidos “ É frevo e manguebeat, maracatu e pastoril, Luiz Gonzaga é folclore é cultura do Brasil” Espero que ela fique em vossa cabeça também. Tentei agora lembrar o nome de um zagueiro português que fez excelente partida ontem, não consegui. Uma hora lembro. Com o juízo embaralhado por tantas inflexões diviso meu arredor escuro iluminado apenas pela tela do computador para tentar achar nele guarida, paz, sono, afago... não acho. Minha retina já adaptada com o escuro me prega peças assustadoras, reflexos e formas assimétricas e nervuradas se formam no breu, é um sinal de alerta, preciso pregar os olhos.

Uma dose de whisky poderia ajudar, ou quem sabe ler uma daquelas cartas que Fernando Sabino escreveu para Clarice Lispector em 1946, melhor não, são drogas muito pesadas para um juízo tão extenuado. A rua agora está de fato totalmente silenciosa, não ouço sequer um carro passar, os mais afortunados estão em suas fortalezas entre as cobertas desfrutando de um sono reparador o qual egoistamente invejo.

Ando pelo corredor sem iluminação tentando fazer o mínimo de ruídos possível vou pela milésima vez até a geladeira encarar por alguns segundos garrafas com água, frios, vegetais e recipientes de plástico que em algum momento serão surrupiados por algum parente ao cabo de alguma data festiva. Não farão falta, o sono, por outro lado, me faz muita. Volto ao computador e abro o tratado de direito civil de Pontes de Miranda, com sessenta volumes é a maior obra jurídica brasileira, gostaria de ler todos, gostaria de conseguir ler mais de uma página agora. Pontes de Miranda pode esperar, meu cérebro talvez não.

Diriam os especialistas no assunto que a adrenalina e o cortisol liberados pelo constante estado de alerta do meu corpo é o que o impede de serenar. Colocam tudo na conta da pobre da ansiedade que nunca fez mal a ninguém, salvo, é claro, para os que a sentem.

Dentro em pouco, quando a abóboda celeste começar a se azular e os bem-te-vis e sabiás começarem a cantarolar anunciando a inauguração da manhã eu estarei terrivelmente cansado, mas não só isso, estarei também cansado de dizer que estou cansado, como já estou nesse instante.

Apesar disso, não declaro guerra a insônia, companheira antiga e as vezes gentil que é, se fez minha amiga e dói devagar, fiz com ela o seguinte pacto de cavalheiros: na altura de meu centenário quando meu corpo enfim fenecer não comparecerei ao meu velório e deixarei todos os convidados esperando, estarei demasiadamente cansado por ter ficado mais uma noite em claro!

Ps. O cronista se auto concedeu uma semana de férias da escrita, mas já está de volta para vossa miséria.

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