MÃOS
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Victor F. Campos
3/10/20263 min read


A observação é o combustível da escrita. E é aí, caro leitor, ilustre leitora, que nasce a dificuldade. Com a rapidez que as coisas caminham observar virou artigo de luxo. Ninguém observa mais nada, raramente se pousa a vista sobre algo com parcimônia, ao revés, tudo quanto se faz é com açodamento. Vivemos com os olhos e dedos sempre fixos nas telas e os grandes conglomerados cientes disso procuram de todo jeito contribuir com este novo costume, senão vejamos, lojas virtuais, cardápios digitais, toda sorte de aplicativos “facilitadores” de rotina que contribuem sobremaneira para essa sensação de imediatismo embutida em todos nós. E a boa e velha arte de observar vai ficando para trás, obsoleta, antiquada. Desconheço um cronista que, antes de tudo, não seja um exímio observador, vou além, é necessário que seja um observador inveterado, do contrário, não escreve.
Imbuído com esse sentimento, em uma dessas tardes, dirigia pela minha rua preferida da nossa capital, a avenida Brás de Aguiar, chovia fino, mas o sol dava indícios tímidos de que apareceria ao final do expediente só para não dizer que não falou das flores. Sempre que posso ajusto meu caminho para passar pela viela, especialmente quando estou sozinho, acho a avenida um charme, sombreada, estreita, repleta de locais onde se pode comer bem e trocar um dedo de prosa sem o barulho das avenidas maiores, um local perfeito para observar. O sinal ainda amarelava quando acionei os freios para aproveitar um pouco mais meu solitário passeio. Carro parado no farol é um convite a uma olhadela no celular, ameaçava desbloquear a tela quando uma cena na calçada me despertou atenção. Um casal de idosos, de mãos dadas caminhando no passeio público sob o fino chuvisco, ele trajava a formalidade, ela um alegre vestido. Ele a oferecia o lado de dentro da calçada com uma dignidade invejável, como versa o manual do bom cavalheiro. O sinal abriu e o experimentado casal seguiu seu caminho e eu o meu, mas com o retrato das mãos firmemente dadas dos idosos e apaixonados consortes pulsando em meu pensamento.
Tocado pela cena parnasiana que acabará de presenciar revirei o baú da memória em busca desse mesmo sentimento outrora inédito. A primeira vez que estive de mãos dadas com a minha senhora, mais de uma década atrás em um aprazível passeio pelo shopping, a primeira vez que as pequenas mãos do meu filho tocaram as minhas, ou ainda quando ia ao supermercado de mãos dadas com minha avó e suas fortes mãos eram a minha segurança, hoje quando repito com ela o mesmo passeio são as minhas que são fortes e as dela frágeis e engelhadas. Ainda na infância e adolescência temos a ânsia de largar as mãos que nos suportam pensando erroneamente que tal ato irá se perfazer em liberdade, ledo engano! Já mais vividos, por muitas vezes tudo o que queremos é voltar para o afago das mãos de nossos pais. Em que momento deixamos de observar a profundidade desse gesto? Em que momento deixamos de beijar-lhes as mãos ao tomar-lhes a benção? Ou melhor, quando tomar a benção se tornou obsoleto?
Tenho as perguntas, odeio decepcioná-los, mas não tenho as respostas. Entretanto, sei o antídoto para esse mal: beijemos as mãos daqueles que ainda não foram para o outro plano, cruzemos os dedos com aqueles por quem guardamos sentimento, aproveitemos um pouco mais a velha segurança da infância, reacendamos o antigo e prazeroso sentimento de transitar de mãos dadas ostentando amor ao nosso par. Entrelaçar os dedos meus caros, é enlaçar a alma!
Semana que vem volto, com mais observações.