JUIZ BOM, JUIZ MAU
Descrição do post.
Victor F. Campos
3/17/20263 min read


Os processos eram apenas pilhas de papel na primeira vez que adentrei o cinzento prédio de paredes espessas que ainda hoje sedia a Justiça Militar da União na nossa capital. Os supostamente modernos sistemas de processos judiciais eletrônicos ainda engatinhavam. As partes envolvidas em uma lide costumavam levantar-se quando o Juiz adentrava o plenário, a toga, hoje achincalhada, atribuía grande respeito ao homem ou mulher que a carregava sobre os ombros. A deferência à imagem do julgador era quase palpável.
Fui designado para desempenhar minhas atividades no gabinete do juiz titular. Era, à época, estagiário no salário, assessor na prática e ajudante de ordens na essência. Ciente de minhas muitas limitações procurei me tornar útil em tudo quanto era possível, fazia um pouco disso, um pouco daquilo e do púlpito de minha inexperiência fui angariando amigos. O maior deles, sem sombra de dúvidas o juiz titular. Figura com envergadura moral de fazer tremer alguns supremos juízes da suprema corte, sempre acessível aos seus pares, funcionários, advogados e partes. De modo escorreito, como um pretor romano, aplicava a lex com firmeza e justiça. Os Alexandrinos e Toffolianos que me desculpem, deveriam vir tomar uma aula com o citado magistrado.
Todos nós temos um sexto sentido, algo que faz arrepiar os pelos da nuca, uma certeza amarga, como se o ar mudasse de pressão. Foi o que senti naquela tarde de julho quando me apresentei para o expediente. O juiz titular, havia saído de férias e para lhe substituir neste período, naquele dia, chegaria um juiz carioca para assumir a jurisdição momentaneamente órfã. Os servidores mais antigos, conhecedores da figura, sussurravam seu nome com certo temor, sua fama o precedia. Era um daqueles juízes que não tinha qualquer dúvida de que era um semideus. Destratava servidores, partes, e quem mais cruzasse o caminho de sua majestade.
Assim que pôs os pés na circunscrição o terror começou, um servidor foi mandado para casa com picos de hipertensão causados por um episódio de discordância entre ambos. Quanto a mim, em nosso primeiro colóquio, o carioca me deixou de mão estendida sem me devolver o aperto ou o amistoso “boa tarde excelência” que lhe dirigi. Sem nenhum traço de boa educação, apenas me olhou e disse: “quanto menos falar comigo melhor”, adentrou o gabinete e se fechou em copas. Aliás, constantemente se isolava, incapaz de qualquer ato de gentileza, aparentava ter um pensamento sem espírito, um corpo sem alma. Havia apenas amargura e a toga.
Entretanto, tinha ele um ponto fraco, não era afeito a nenhuma ferramenta tecnológica o que o deixou totalmente refém deste cronista para redigir seus despachos, sentenças e portarias. Ele ditava e eu obediente punha tudo no papel ordenadamente. A escrita sempre me salvando! Com o correr dos dias o impoluto magistrado passou a me dispensar um tratamento mais cordial, a sua maneira, como um senhor de engenho reconhecendo o valor do seu melhor empregado, nada mais que isso. Finalmente o dia de sua ida chegou, tomou seu voo e, sem despedidas, partiu.
Meses depois, seu amargor era apenas uma memória distante quando a telefonista transferiu um interurbano para minha mesa, “Dr. fulano quer falar contigo, esta ligando de Fortaleza”. Pensei mais que diabos esse homem quer comigo, gelei a espinha. Atendi: “pois não Dr”. Ele com voz mansa e gentil como nunca, me pediu que enviasse para a assessoria de Fortaleza um despacho de minha lavra o qual ele havia gostado muito e gostaria de usar durante a sua passagem por lá. Imaginei que esse ato tenha sido o máximo de gentileza e gratidão que sua personalidade permitia. Considerei simular o envio e atribuir a problemas técnicos a não chegada do documento, mas rapidamente deixei a ideia de lado, não combinaria comigo.
Enviei o modelo requisitado e até hoje incluo seu nome em minhas orações. Para pessoas desse feitio talvez seja a melhor coisa a fazer.