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FORA DE MODA

Descrição do post.

Victor F. Campos

1/13/20264 min read

Tenho o hábito de chegar cedo ao escritório, quase sempre sou o primeiro a chegar. Confesso que sou um servo dos meus hábitos, trago esse costume desde a época em que vagava, aboletado de processos físicos (faz tempo!), pelos corredores da Justiça Militar da União (minha alma mater). Gosto da tranquilidade e do silêncio que o ambiente laboral tem antes da correria do expediente começar e é nesse cenário que começo, com muito custo, a escrever a crônica de hoje.

O mote destas crônicas semanais é justamente trazer o meu olhar sobre temas e acontecimentos do cotidiano, da rotina, de coisas que deixamos passar sem perceber, trazer luz a esses corriqueiros acontecimentos sempre foi algo que me despertou interesse. Mas quem disse que seria fácil? Escrever semanalmente requer disciplina e comprometimento, não se pode ficar refém de lampejos de inspiração, afinal, inspiração não dá em árvore e nem aparece toda semana. O meu processo de escrita envolve, quase sempre, rascunhos que vou amontoando no correr da semana (um dia conto melhor como escolho os temas). Ás vésperas da terça pego meus esboços e sento à frente da tela para peneirar as ideias e confeccionar o texto semanal.

O processo parece simples, mas construir uma narrativa que faça o mínimo sentido exige cuidado. Tem vezes que o bicho pega! Essa semana foi uma dessas vezes. Sentei a frente do computador para iniciar o periódico semanal e percebi, com certo desespero, que havia escrito apenas três linhas. Até o bendito título (que não é este aí) que eu havia anotado em um ticket de estacionamento e guardado no bolso da camisa eu havia perdido. Não fosse o bastante a ideia para o parágrafo inicial eu findei por não anotar na confiança (ou talvez soberba) que iria lembrar. Pois bem, não lembrei. Acreditem meus caros, não é história de pescador (e nem de cronista), ideia não anotada é ideia perdida! E para piorar tudo a única coisa que consigo lembrar é que a bendita ideia era boa. Paciência, lição aprendida!

Fato é que a revelia de qualquer falta de inspiração ou negligência minha em guardar meus registros em um arquivo mais seguro a terça feira chegou e com ela a volta total da rotina, um janeiro como qualquer outro, enfim, começou. Meu guri retornou às aulas, meus clientes já perderam a preguiça habitual que aplaca a todos nós no final do ano e, ao menos por enquanto, os órgãos públicos judiciais e administrativos estão funcionando normalmente. A cidade retoma seu trânsito caótico habitual, já não se consegue estacionar com facilidade em lugar nenhum e as filas tomam conta das drogarias e dos mercados. As academias, estúdios e afins registram recorde de matrículas e tudo parece estar no seu devido lugar, menos a crônica do dia.

Já em expediente meu sócio, animado, me apresenta as maravilhas da nova inteligência artificial que o escritório irá utilizar, como ela pode comprimir um texto de cem páginas em dez sem perder sequer uma informação relevante. E como, para o mal dos meus pecados, a mesma ferramenta consegue com poucas frases de comando criar um texto espetacular sobre quase tudo. Enquanto ele me explica percebo que minhas crônicas estão com os dias contados, a IA poderia redigir esta crônica rapidamente e talvez com muito mais clareza. No correr da exposição me questiono se ainda há lugar para este tipo de transcrições feitas de forma artesanal e sem processo criativo bem definido, não consegui chegar a outra conclusão que não fosse: tô fora de moda!

Por que fui inventar esse negócio de crônica é o pensamento que me ocorre logo depois. Uma dúzia de pessoas me lê, não sou escritor e a IA em menos de um minuto produz um texto que eu levo uma semana inteira para fazer. Em uma fração de segundos penso que gostaria de ser blogueiro ou tiktoker, estas sim são as profissões do momento! Com um sorriso no rosto afasto essa sandice da cabeça, não tenho carisma e nem cara e pau para divulgar coisas que não acredito e não consigo me imaginar fazendo dancinhas e afins. Seria um retumbante fracasso, fora a vergonha de já com fios brancos na barba, ter que me submeter a isso.

A verdade é que escrevo por sentimento. Gosto de escrever independente de ser lido ou não, apesar de ficar muito grato com as mensagens de elogio e críticas que recebo (fiquem à vontade para mandar sempre), não são elas que me movem. Sou movido pela satisfação pessoal de por meus pensamentos no papel e de registrar para posteridade minha visão do mundo e meu olhar sobre a vida.

Apesar das IA’s e de todos os outros aplicativos que nos prendem e parecem ler nossos pensamentos, eu não troco nenhum deles pela minha eventual passada no boteco ao voltar para casa, pelo abraço de queridos amigos, pelo cheiro da mistura de suor com shampoo que emana da cabeça do meu filho ou pelo beijo da minha Sra. É daí que vem a minha inspiração, minha satisfação pessoal e o meu sentimento de estar vivo e não apenas vendo a vida passar. Quando entro em um bar e vejo metade dos clientes com a cara no celular e a cerveja esquentando na mesa sinto uma dor profunda. Talvez por isso eu frequente o mesmo boteco, com amigos muito mais velhos do que eu que não sabem se o ChatGPT é um órgão do governo, um aplicativo ou um novo golpe que estão tentando dar. O que falta em tecnologia sobra em vida e calor humano, e às vezes, é só disso que a gente precisa.

Não me entendam mal, não sou avesso a ferramentas tecnológicas, só acho que não podem ser mais do que ferramentas, por mais óbvio que isso possa parecer. Que fiquemos alguns momentos sem utilizar o WhatsApp ou o Instagram para aproveitar um café na companhia de um amigo, ler esta crônica, ouvir uma música que nos agrade ou simplesmente ver a chuva cair, é a época certa para isso inclusive!

Seguirei utilizando todas as ferramentas que citei, mas também seguirei registrando meus rascunhos em papéis amarelados, cartões de visita e tickets de estacionamento. Para o azar de vocês, as crônicas irão continuar e se souberem algum aplicativo que consiga fazer a gente lembrar do que deveria ter anotado me avisem, a ideia para a crônica que acabei esquecendo era realmente muito boa. Uma hora eu lembro. Até semana que vem!