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DEZ, NOTA DEZ!

Descrição do post.

Victor F. Campos

2/17/20263 min read

Já que estamos no tempo da folia momesca tomo de empréstimo a expressão imortalizada na voz de Jorge Perlingeiro para intitular esta crônica. O tempo, este senhor tão bonito, vem escoando com extraordinária rapidez, em um estalar de dedos, chegamos a crônica de número dez! Uso o verbo chegar no presente do indicativo não por acaso, vez que, não cheguei até aqui sozinho. O ato de escrever não é totalmente solitário, quando redijo minhas ideias, lembranças, experiências, o faço com base na vivência compartilhada no correr da vida. Nesse tom, não posso dizer que sou o único cronista desta tímida página. Quando escrevo, quem me rodeia escreve através de mim. Meus familiares, amigos e leitores são cronistas anônimos dos quais extraio matéria prima e confecciono verdadeira amálgama de sentimentos, opiniões e tarimbas.

Mas não nos enganemos, há solidão nesse processo. Quando o caro leitor apenas se depara com o resultado bem-acabado após a publicação não imagina a frustração que antecede o texto. Por vezes a crônica apenas baixa de uma vez, vem completa, assunto, métrica, começo, meio e fim! Mas infelizmente este pretenso cronista não é nenhum Nelson Rodrigues (sua benção, mestre!). O ato de inspiração descrito na linha anterior é a exceção. Na retumbante maioria das vezes a escrita é precedida de toneladas de observações diárias anotadas grosseiramente em papeis avulsos, de longas e dolorosas reflexões, da leitura das manchetes dos periódicos semanais e até mesmo de uma visita ou outra nas paredes da memória. Não é todo dia que se faz um gol bonito, mas para ele ocorrer há que se continuar fazendo gols.

Nessa semana um apagão me ocorreu! Caneta e papel a mão nada que valesse a pena parecia brotar do meu deserto de inspiração. Nessas horas apela-se para tudo, consultei velhas anotações, folheei livros antigos, fui até a pia e lavei o rosto uma dúzia de vezes, nem a ida ao bar de estimação pareceu ajudar. Enfim, pela primeira vez, cheguei no único sentimento solitário do escritor: a frustração! Logo na de número dez, é muito azar! Nessas horas começo a questionar a própria competência para desempenhar a tarefa. Escrever é um troço complicado!

Já sem esperança recorro as manchetes das gazetas, que a princípio nada de muito animador me trouxeram. Homicídios, rombos na previdência, ministro sócio de resort, a república prestes a ser obliterada por um escândalo bancário que parece ter envolvido até o carteiro do bairro, tempos estranhos! Quando a fé parecia esvair-se de vez as espirais televisas noticiam a primeira medalha de ouro de um brasileiro em esportes na neve, na gazeta impressa uma tímida nota aduz que através da descoberta de uma cientista brasileira seis tetraplégicos recuperaram seus movimentos, torço para que esta notável mulher seja colocada imediatamente no livro de aço de heróis nacionais! Estas duas manchetes me fizeram sacudir a poeira. Ainda há esperança!

Ligo o computador e volto a escrever, penso que ao cabo, meus registros semanais podem servir como um depósito de ideias e opiniões que traduzem a minha personalidade possibilitando que um dia, quando eu me chamar saudade, meus descendentes tenham acesso a mim através destas linhas. Penso também que em meio a tantas notícias desanimadoras minhas singelas linhas podem arrancar um sorriso aqui uma reflexão acolá, e se isso ocorrer minha tarefa estará cumprida. Não sei precisar por mais quantas terças-feiras eu ainda escreverei, mas garanto que semana que vem ainda estarei aqui escrevendo, quem sabe, um dia, juntos, chegamos na de número cem! Até!