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DEVANEIOS

Descrição do post.

Victor F. Campos

3/25/20263 min read

Hoje me encontrei saudoso. Saudoso de tempos e sentimentos que nunca mais serão repetidos em minha existência e por isso mesmo intitulo esta crônica com tal nome. Devaneios, quimeras, sonhos, palavras intimamente ligadas a fatos e sentimentos quase inalcançáveis, dissociados da realidade, assim como a minha vontade de revisitar frações de existência já idas, de acessar sentimentos não mais disponíveis. O tempo passa, o mundo evolui e algumas sensações tornam-se inacessíveis. O tempo fecha as portas e em um átimo o sentimento outrora comum se perfaz em saudade. Talvez o nobre leitor e a ilustre leitora não estejam entendendo onde quero chegar, tenham paciência, irão entender.

Envelhecer, segundo o léxico, significa tornar-se mais velho, observar o transcurso de determinado período. É a essa segunda definição que atribuo um adendo, qual seja, envelhecer é observar o escoar do tempo utilizando uma lente teleobjetiva. Por vezes, ao visitar episódios passados, temos a nítida impressão de que o ocorrido teria acontecido há dois ou três anos e ficamos surpresos ao detectar que na verdade o episódio já tem quase uma década. Enxergamos algo muito distante, como se estivesse próximo e por isso a analogia com o recurso fotográfico. O ano de dois mil e dezesseis, que grande ano, esta há dez anos de distância e ainda assim parece estar tão perto não é mesmo?

Gosto dos aprimoramentos que a força do progresso moderno nos trouxe, mas sinto um enorme vazio quanto aos hábitos que este mesmo progresso nos tirou. Creio que esse sentimento se perfaz pulsante muito pelo fato de a minha geração ter vivenciado a transição entre o antes e o depois de brutais evoluções tecnológicas. Chamadas por vídeo, Whatsapp e seus infindáveis grupos, internet acessível a qualquer momento em quase qualquer lugar, tudo isso aproximou as pessoas, amenizou saudades, facilitou o acesso a informação, reduziu anos, décadas. Entretanto, ao mesmo passo, criou uma geração de ansiosos, impacientes e depressivos acostumados a ter tudo, literalmente, na palma da mão.

O grupo de Whatsapp de nossos avós eram as praças, as calçadas. Sinto especial saudade do hábito de estender cadeiras a porta de casa ao final do dia para tomar-se um dedo de prosa, inteirar-se do dia, comentar manchetes, contar histórias, no meu caso, ainda criança, ouvir causos de visagens, matintas, dentre outros seres imaginários que permeavam nossa imaginação. Ao passar na rua da casa onde cresci noto apenas pequenos resquícios desse hábito, são outros tempos, o fator segurança passou a ser mais relevante do que antes, ou talvez, do que nunca, forçando as pessoas a ficarem presas em casa comunicando-se através de um dispositivo, longe do tato, dos olhos, das reações.

Em seu período mais celebre a mesma rua era tomada por famílias sentadas em alpendres e no passeio público. Comércios dos mais variados tipos, mas quase sempre de alimentos, fervilham e incitavam a fome de crianças e adultos. Sentava-se e ouvia-se sem pressa, sem rolar a tela, sem apressar a fala em duas vezes mais. Não havia urgência na informação nem a ansiedade originada pela oferta de incontáveis opções de entretenimento que hoje nos tomam como reféns. Havia o contato humano e nada mais e era só o que todos nós precisávamos. Ao cabo do dia, longe das telas, tínhamos um parcimonioso e revigorante sono, fato raro atualmente segundo entendidos do assunto.

Em aprazíveis tardes tomava meu cavaquinho e descia a rua andando, não havia uber, em direção a casa de um dos meus professores de música, ali, na sua calçada, ele violão no colo, me lecionava músicas do cancioneiro popular que até hoje me pego assobiando. Uma delas, guarda total relação com esta crônica, cantada pela malemolente voz de Chico Buarque trazia os seguintes versos: “ ... São casas simples com cadeiras na calçada, e na fachada escrito em cima que é um lar. Pela varanda flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar. E aí me dá uma tristeza no meu peito, feito um despeito de eu não ter como lutar...”. Já falei que estou saudoso?

Semana que vem prometo fazer mais sentido.