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DESCONFIO

Descrição do post.

Victor F. Campos

6/24/20263 min read

Desconfio de gente calada em demasia. Desconfio dos muquiranas da língua. Dos que não lançam aos porteiros, cobradores, guardadores de carro e empacotadores de mercado sequer uma protocolar saudação acompanhada da indagação de como vai o dia. Desconfio dos que não cumprimentam os passageiros no elevador, dos que não lançam a uma criança que se aproxima um largo sorriso. Desconfio dos que silenciam o consolo a um amigo necessitado. Desconfio de quem nunca entrou em um boteco ou em uma igreja atrás de uma palavra de salvação. Desconfio dos lacônicos, dos sisudos, dos economistas do vernáculo e tenho com eles uma guerra pessoal. Desconfio dos verborrágicos, dos prolixos, dos tagarelas que amam o som da própria voz. Desconfio de quem não reclama do preço dos produtos na feira olhando para a pessoa ao lado esperando que concorde. Desconfio de quem nunca fez amizade na fila do banco. Desconfio de amizades que não nasceram ao redor de uma mesa ou um copo, ou se não nascidas assim não foram por esses atos iluminadas ou exacerbadas. Desconfio de quem não chora em velório. Desconfio de quem nunca escreveu uma carta de amor ridícula. Desconfio de quem nunca chorou uma chegada ou uma partida. Desconfio dos desapegados, dos autossuficientes, dos ególatras, dos que bastam a si próprios. Desconfio dos que contemplam a própria existência como se fossem o elo perdido, a arca da aliança, o santo sudário. Desconfio de quem nunca dividiu um gole de cerveja com um mendigo, ou ainda que não tenha feito, dos que nunca mataram a fome ou a sede de alguém. Desconfio de políticos que falam em exagero e dos opostamente calados, aliás, desconfio de todos os políticos. Desconfio da esquerda. Desconfio da Direita. Desconfio se a existência do centro é real. Desconfio dos que nunca falharam, dos que nunca choraram, dos que nunca se viram perdidos, dos que nunca faliram miseravelmente, dos que nunca pediram socorro. Desconfio dos que nunca olharam para o céu para serem acudidos ou para agradecer. Desconfio dos ingratos e dos gratos por tudo. Desconfio dos ministros do supremo, nem todos! Desconfio de quem não gosta de samba e dos sambistas bissextos. Desconfio de quem não gosta de idosos e animais, à exceção de cobras e ratos, esses podem ser odiados a la vontê! Desconfio de quem não gosta de mostarda. Desconfio de molhos em sachês, de cardápios em qrcode, de talheres embalados em sacos plásticos. Desconfio de quem não bebe, de quem não brinda, de quem nunca tomou um pileque. Desconfio de cardiologistas. Desconfio que Daniel Vorcaro seja corrupto. Desconfio de quem nunca foi a missa ou ao culto. Desconfio de quem diz que quer fazer do mundo um lugar melhor. Desconfio de quem aguenta voos longos com tranquilidade, de praticantes de mergulho e alpinismo. Desconfio de quem nunca jogou o jogo desconfio e perdendo, foi obrigado a tomar uma generosa dose de uma bebida terrível. Desconfio de quem nunca teve sequer um sintoma de ressaca em toda a vida. Desconfio de quem vaticina que não se arrepende de nada. Desconfio de quem reza demais e de menos. Desconfio de quem coloca o arroz por cima do feijão. Desconfio de quem não me lê semanalmente e faço votos que tomem uma topada em alguma quina. Desconfio que deveria ter divido essa crônica em parágrafos. Desconfio que esse negócio de escrever esteja indo longe demais. Desconfio que essa semana atrasarei novamente, aliás, desconfio de quem sempre atrasa e de quem nunca se atrasou. Desconfio de quem vive de bom humor. Desconfio da seleção Brasileira. Desconfio de quem não confia na Seleção Brasileira. Desconfio de quem aproveita uma oportunidade de ficar calado e de fato fica, eu desperdiço todas! Desconfio de você, caro leitor, que aprecia o que escrevo ou que mesmo não gostando insiste em ler. Enfim, desconfio de todos os seres vivos!

Confio em todos os mortos.

Até.

Ps. Brasil dois, Escócia zero. Fluminense mil! Sempre.

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