DEPENDÊNCIA
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Victor F. Campos
4/10/20263 min read


Eis aqui uma crônica que não deveria ser escrita, sequer publicada! O cronista anda de mau humor e sem nenhuma intenção honesta de agradar os leitores, portanto, recomendo que sequer terminem essa linha, fechem a página e sigam seus caminhos, terão mais a ganhar. Garanto a vocês que não há aqui nenhuma espécie de psicologia reversa ou recurso de literatura barata, apenas um banzo dos bons. A tristeza, sem convite, puxou uma cadeira e tomou assento tal qual uma visita indesejada que propositalmente ignora as indiretas do anfitrião e vai ficando mais alguns minutos. Aliás, quando o anfitrião lança ao visitante o protocolar “fique à vontade”, mas não lhe mostra onde fica a geladeira, ele quer tudo, menos que o forasteiro fique à vontade. Mas sobre isso, escrevo depois, quando o humor melhorar, se melhorar!
A semana começou daquelas! Aparelho celular resolveu pifar na bacia das almas do domingo, um prefácio do que viria a ser o início da semana, nós, encarcerados que somos por todas as funcionalidades do bendito não conseguimos mais vislumbrar nosso ritual diário sem ele, não que haja qualquer ponta de orgulho nisso.
Dia amanhecido, após tomar um café da manhã frugal do qual quase não senti o gosto, tratei de notificar o escritório sobre a minha amputação tecnológica temporária. Isto feito, segui em busca de um especialista que pudesse curar o meu agastamento consertando o aparelho. Para minha surpresa descobri que a classe de assistentes técnicos não é muito afeita aos horários da jornada de trabalho convencional, pelo visto, seguem o expediente bancário já que as duas lojas que visitei quando o relógio marcava às oito horas estavam ainda fechadas. Por puro golpe de sorte, após muito buscar, encontrei um early bird que ás nove horas levantava as cortinas de sua loja.
Após rápidas introduções apresentei ao especialista a mazela do dispositivo, ele com a tez exalando seriedade tal qual um neurocirurgião, me pediu alguns minutos para submeter a peça a alguns exames. Passados bons quartos de hora que pareceram durar uma quinzena de dias o perito retornou e vaticinou em tom austero “É caso de cirurgia, vamos precisar internar. No fim da semana, se tudo correr bem, já o libero para a recuperação em casa”. Ou ao menos, foi o que interpretei. Para o mal dos meus pecados, fui sentenciado a ficar sem contato com o mundo exterior por mais alguns dias. Sem contato, sem serviço bancário, sem crônica. Haja paciência!
Ao tempo em que este escrito é publicado provavelmente já devo estar com o celular em mãos e quem sabe com melhor humor, mas até lá, destilarei aqui toda a minha frustração em ter permitido que a ausência de uma ferramenta tão minúscula tenha causado impacto tão contumaz em minha rotina. Eu, um inimigo declarado desta tecnologia não fui páreo para ela. Gostaria, meu insistente leitor, de deixar em verso e prosa ás coisas boas que ocorreram nesse ínterim, de como admirei os pássaros cantando, de como vi as borboletas voando no jardim de minha casa, de como desfrutei de momentos agradabilíssimos de conversas com meus familiares e amigos de trabalho, isso tudo, por não ter uma bendita tela para me desviar a atenção. Mas hoje o primeiro lugar do pódio vai para o imediatismo a contemplação perdeu a guerra. Escrevo sobre ela outra hora. Sim, estou procrastinando.
Só de imaginar as centenas de mensagens que irão inundar meu juízo assim que a pressão dos meus dedos fizer o bendito dispositivo ligar já sou tomado por ondas de ansiedade que certamente farão meu humor piorar ainda mais (mais ansioso ainda ficarei se não houver nenhuma).
É hora de parar de escrever. Lhes dei o que era possível, se tiverem coragem, me leiam na próxima semana, do contrário, foi bom enquanto durou.
Ps. Uma dupla de amigos queridos me desafiou a incluir uma palavra qualquer em minha crônica para que eles soubessem, ao ler, que eu teria acatado o desafio. A palavra: resiliência. Desafio cumprido.