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CENAS BELENENSES - PARTE 1

Descrição do post.

Victor F. Campos

4/14/20263 min read

Em uma movimentada e nobre avenida da capital o trânsito encontra-se letárgico, a ampulheta revela que a metade do dia já se escoou, o deus Apolo capricha em suas caldeiras e o astro rei opera em máxima potência. Buzinas são ouvidas a léguas e o tempo aparenta ter resolvido diminuir sua marcha. O grisalho e bem vestido senhor interrompe os motores de seu BYD (do ano!), acende o pisca-alerta e o deixa repousando em fila tripla enquanto seu neto (ou seria filho?) sem impaciência se despede dos colegas de farda e caminha em direção ao carro. Nem um dos dois parece se constranger com a barbeiragem cometida, o guarda de trânsito, como Pilatos, lava suas mãos e não lhes oferece nenhuma reprimenda, não há problema se no coletivo sem refrigeração existem pessoas indo ou voltando de seus ofícios, indo à escola, indo a uma entrevista de emprego. Não há mal algum se o trabalhador que só dispõe de uma hora de almoço vai se atrasar para ter uma rara refeição com a família antes de voltar para o batente. Está tudo bem, afinal, é rapidola!

A algumas centenas de metros dali, em um mercado que traz no nome a promessa de ser o mais em conta (mas fica só na promessa), as costumeiras filas de fim e início de mês começam a tomar forma, as gondolas recém abastecidas estão fartas de toda sorte de produtos, o setor de hortifrúti (adoro essa palavra), revela imensa variedade de cores e aromas, tudo a altura da seleta clientela do bairro. No caixa uma jovem mulher com uma cópia mais nova de si grudada na barra de sua calça tenta simultaneamente passar suas compras pela esteira rolante, verificar o valor a pagar e impedir que a criança derrube a prateleira de doces. Mal arrasta o penúltimo item para a leitura do código de barras e é surpreendida pela senhora que aguardava logo atrás para passar suas compras. Com uma pressa de quem está lutando contra o tempo para safar da forca um ente querido a madame despeja suas compras quase sobre as compras alheias fazendo mãe e filha se assustarem e saírem quase como que despejadas do caixa. Que mal há nisso? A dondoca estava com pressa e não tinha tempo a perder, orgulha-se de sua personalidade forte e de ter tudo o que quer no momento em que quer. O que há de se fazer?

Enquanto isso, no estacionamento do principal shopping da cidade, a busca de uma família por uma vaga para balizar o veículo se acirra, o mall se acha lotado e parar o carro em andares mais altos é um convite a uma longa descida em elevadores lotados, ainda por cima com duas crianças, as dificuldades que visam embasar o ato de má educação (para dizer o mínimo) começam a ser garimpadas entre o casal de adultos dentro do veículo. Desistem de subir mais andares, estacionam na vaga reservada para pessoas com transtorno do espectro autista. Prometem um ao outro não demorar, nunca fizeram isso, mas hoje estão com as crianças, sabem como é né? No máximo irão tomar uma leve bronca de um ressabiado segurança que recebe muito mal, trabalha em condições muito ruins e que invariavelmente ao tentar executar seu labor ainda é obrigado a ouvir a famosa bravata: sabe com quem está falando?

Cenas inflexíveis e desanimadoras como essas narradas acima são quadros corriqueiros do convívio em nosso aldeamento. Seus autores são os mesmos que a cada dois anos nos meses de outubro bradam por conceitos morais e políticos que raramente conseguem cumprir em seu dia-a-dia.

A crise institucional talvez só não seja maior que a crise moral. Mas como cobrar bons modos em um país em que a lei parece ser apenas uma inconveniente sugestão?

Ps. Aparentemente as pessoas em situação de rua deixaram de ser invisíveis para os mais abastados, agora são alvo de pequenos atentados na certeza da impunidade, como se essas pessoas não fossem também titulares de direitos. Que juristas estamos formando...

Até!