AOS RESPEITÁVEIS LEITORES
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Victor F. Campos
6/1/20263 min read


Amigo próximo me cobra que escreva sobre temas “sérios” com maior frequência. Argumenta, com tenacidade, que possuo cabedal para escrever sobre assuntos mais agudos e sobre eles opinar com maior profundidade. Explico ao amigo, nessa crônica, que embora fique lisonjeado com o seu interesse e fé em meus posicionamentos devo desapontá-lo amargamente. Não sou colunista e francamente não tenho a menor intenção de sê-lo. Há homens e mulheres mais sábios e vividos escrevendo e se posicionando sobre tudo quanto existe em matéria de seriedade. Jornalistas experimentados que investigam, apuram, trabalham a fonte, revelam furos e opinam com acurácia (uns nem tanto) sobre tudo um pouco.
Quanto a mim, cuido exatamente do oposto. Escrevo sobre o nada. Extraio dele tudo que consigo. Sou um absoluto adicto da banalidade. Como então poderia me aventurar em temas de interesse nacional? Prefiro me debruçar sobre o que resta. E me resta muito. O nada guarda em si imensa riqueza. A desgastante rotina traz em seu bojo matéria prima interminável.
É certo que vez ou outra escreverei an passant sobre objetos mais austeros, todavia, sem a menor intenção de soar como especialista ou de ter sequer um pingo de razão. Sobre escândalos de corrupção qualquer um pode grafar, quero ver escrever sobre o sabiá laranjeira que do alto de seu trono na copa da mangueira canta todas as manhãs em meu jardim. Sobre o inexorável escoar do tempo, sobre o colossal guisado de charque com batatas que minha avó prepara e que não consigo copiar mesmo sabendo a receita de cabo a rabo. Ou mesmo sobre como simetricamente as pedras de gelo derretem e gentilmente acomodam-se e tilintam na dose que me acompanha enquanto registro estas linhas. Desejo ser o caminho e não o destino. Protesto que minhas crônicas funcionem como a revigorante parada em uma viagem em família, na beira da estrada, para esticar as pernas e sorver um café fumegante. Almejo as miudezas da vida.
Faço um pedido as Sras e Srs, se notarem que estou com muita sisudez em meus escritos, tenham a fineza de me trazer de volta ao normal. Quero que em meio a cadernos políticos, econômicos e policiais minhas crônicas surjam como um alivio cômico no melhor estilo Alfred Hitchcock (quanta pretensão!). E não como mais uma pulga atrás de vossa orelha amável leitor. Aliás, esta faltando orelha para tanta pulga.
Na mesma esteira, clarifico a vós que não escrevo por encomenda. Não por arrogância ou estrelismo, mas por pura falta de capacidade. Sendo assim, ainda que me peçam para falar sobre o tema A ou B, eu dificilmente o farei. Minha escrita nasce quando a trivialidade me toca. O que comanda a pressão dos meus dedos é antes de tudo o coração e não o cérebro. Logo, me torno absolutamente incapaz de ser um colunista de sucesso, escolhi ser um pretenso cronista e fiz as pazes com isso.
Para lhes exemplificar.... Recentemente, eu e minha Sra. fizemos pedidos de comidas diferentes em locais distintos. Acreditem se quiserem, os dois entregadores chegaram ao nosso portão ao mesmo tempo e iniciaram verdadeira reunião da classe em meio a calçada, discutindo rotas, valores de corridas e reclamando da fina garoa que caia. Fascinado com a cena, pensei imediatamente: “Isso dá uma crônica”.
Devia essa satisfação sobre meu processo criativo, vejam que não há nada de glamoroso nele, não tocarei mais no assunto. Daqui em diante quando alguém me perguntar de onde tiro as ideias para os meus parágrafos eu cinicamente imitarei Rubem Braga e responderei: “Não sei, escrevo de ouvido! ”.
Ps. Pensei em publicar mais de uma crônica por semana. Desisti imediatamente. Minha escala seguirá sendo 1x6.