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AOS AMIGOS COM CARINHO

"Amigo é aquele que sabe tudo a seu respeito e, ainda assim, gosta de você" Elbert Hubbard.

Victor F. Campos

2/10/20263 min read

O rei Roberto Carlos, em uma das mais famosas canções de sua vasta e rica discografia aduz que gostaria de ter um milhão de amigos! A canção é até bonita e ao ouvir com mais vagar podemos perceber que os amigos citados na letra não são bem amigos tal qual imaginamos. Data vênia discordo totalmente de sua “majestade”, eu não quero ter um milhão de amigos, a bem da verdade, estou plenamente satisfeito com os que já tenho. Gostaria apenas de ter mais tempo para dividir com eles a convivência.

Não quero novos amigos. É a conclusão que chego quando penso em todo o caminho a ser percorrido desde as primeiras apresentações até o derradeiro nó da amizade duradoura. Construir nova amizade é uma conquista sem romantismo, exige tempo, dedicação, disponibilidade e acima de tudo paciência. Ao receber nova pessoa no círculo íntimo temos que ter a noção de que a nova convivência que se instaura traz consigo defeitos, qualidades, manias, trejeitos... cá para nós, é um saco se deparar pela primeira vez com o defeito de um pretenso amigo! Mas a inexorável marcha da vida impõe que passemos por essas provas, afinal, solidão e felicidade são velhas inimigas. O caso é que cada vez mais a rotina nos deixa menos espaço para construir relações perenes.

Vencidas as etapas vestibulares da gênese da camaradagem, normalmente, uma grande relação se revela, como um avião que na decolagem atravessa o cumulus nimbus e ao chegar em altitude e velocidade de cruzeiro, pós tormenta, voa parcimonioso em céu de brigadeiro. Tenho a sorte de ter grandes e verdadeiros amigos. Uns da época da escola, outros de convivência nas ruas de Icoaraci quando criança. A faculdade também me trouxe poucos e bons amigos, assim como os balcões dos bares que frequento. A advocacia, por fim, adicionou bons companheiros em minha vida. Bom mesmo é misturar os círculos de amizade, confesso, tenho esse vício, e até aqui, vem dando muito certo. Os amigos de infância passaram a se misturar com os amigos mais recentes criando uma saudável e gostosa convivência familiar, especialmente com o nascimento dos filhos dos amigos. Esse sim é um momento ímpar!

Na semana que passou a vida brindou um casal de amigos com a visita de cegonha, eu fui presenteado por tabela já que o rebento é filho do meu amigo mais antigo, com quem divido o compadrio sendo um padrinho do filho do outro. Em meu círculo mais íntimo existem amigos de muitos anos, o mais recente, já conheço há quase uma década. Ser amigo é saber ser suserano e vassalo, é ser herói e vilão, cobrar com comedimento e receber com gratidão, é dizer a verdade com frases abertas é, ao cabo, ser o mais certo nas horas incertas (já que estamos falando de Roberto Carlos). Aos meus amigos devo muito mais do que uma simples crônica, apesar de dedicar essa a todos eles. Alguns irão ler esta crônica, outros nunca, mas c’est la vie. Não fosse por um querido e recente amigo cronista e baita escritor, sequer a escrever eu teria começado.

A ideia de falar sobre amizade vinha martelando meu juízo já há algum tempo, registrei em linhas esparsas algumas inférteis ideias, amontoei os papeis no bolso e sai dirigindo a esmo nesse sábado nublado (dia em que escrevi este terminante parágrafo), ao dobrar em uma pequena viela localizada próxima a minha casa vislumbrei uma pequena mercearia com alguns gatos pingados proseando e bebericando. Parei, encostei no balcão e tentei ao máximo não participar do papo que já ocorria antes da minha chegada, macambuzio fechei a cara para me concentrar na minha tarefa sem importunação. Entre miríades de cerpinhas, passei a escrever este bosquejo quando uma mão me tocou o ombro, olhei de soslaio e vi que o sujeito vergava uma camisa rubro negra, putz! Ainda é flamenguista, pensei. Lembrei que estava vestido com a camisa do único time tricolor do mundo, o das laranjeiras (todos os outros são times de três cores).

O folgado cliente me apertou a mão ignorando meu mal humor, pediu uma dose de quente, sentou na banqueta ao meu lado e sorrindo exprimiu: “ – Égua um rubro negro e um tricolor bebendo juntos é por isso que vai chover !”. A espontaneidade do cabra me desarmou arrancando um sincero sorriso. Toda vez que tento fugir uma nova amizade me morde o calcanhar. Deixei o papel e a caneta do lado virei para ele e indaguei: “- Rapaz, e o Flamengo mais tarde? ”

Logo eu que não queria mais fazer novos amigos....