AO MEU QUERIDO FOLHA
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Victor F. Campos
6/18/20263 min read


Na próxima semana completam-se sete anos.
Cometia meus exageros alcoólicos e gastronômicos no estrangeiro, mais precisamente na cidade do Porto, naquele pequeno país da península ibérica que nos colonizou. Após consumir quantidades industriais de Chopp e pataniscas de bacalhau o corpo e o espirito ululavam por uma ducha quente seguida de sono reparador entre as cobertas. Adentrei na terra de Morfeu de modo suave e profundo embalado pela mão invisível do belo porre tomado no correr do dia. Foi um dia feliz, desses que se sente saudade sem saber ao certo o que se está sentindo. O sono foi abruptamente interrompido por uma mensagem vinda do Brasil que dava conta do falecimento do meu querido amigo Paulo Henrique de Oliveira Folha Neto. Entontecido pelo golpe e pelo pileque andei silenciosamente até a janela da suíte e encarei por longos minutos a cidade que naquele momento estava escura e nublada, como se pronta para me dar uma má notícia. O sal se precipitou pelo meu rosto. Folha havia partido.
Folha (como insistia em ser chamado) e eu nos conhecemos ainda no ensino infantil em uma escola pequena na minha querida Icoaraci. Cumprimos juntos todas as etapas do ensino fundamental em uma época em que a vida escolar se resumia a jogar futebol no intervalo, irritar as menininhas que gostávamos e ansiar por ouvir o toque que indicava a saída. Já desde a infância Folha era um desses sujeitos de pensamento afiado, gatilho rápido para o humor, pés hábeis na condução da bola e vocação aguçada para a pregação de peças. Recordo que um dia o malandro chegou calado na escola, se comunicando apenas por gestos e recados escritos em bilhetes que justificavam seu laconismo por uma suposta obturação realizada no dia anterior. Deixou todos comovidos com sua condição até o fim da aula quando não suportou mais sustentar o engodo e explodiu em uma barulhenta gargalhada que contagiou todos nós. Um canalha de primeira!
Ao cabo de nossa infância nos distanciamos, nossos colóquios se resumiam a encontros esporádicos em nosso vilarejo, todos sempre muito efusivos, mas sem o poder de conectar nossa amizade novamente. A vida tem dessas coisas, como a maré vazante, afasta de nós pessoas outrora fundamentais a nossa rotina e nós, inertes, contemplamos esse refluxo.
Mas assim como leva, a vida também traz, seis meses antes de sua partida definitiva nós nos encontramos na casa de um amigo em comum que aliás era quem compunha junto comigo e Folha a tríade da anarquia no colégio. O encontro foi um raro prazer, dali em diante, firmamos um pacto de reaproximação. Passamos a sair no meio da semana, os três, para bebericar uma cerveja, nos atualizar da vida um do outro e desfrutar do pouco tempo que, sem saber, ainda tínhamos. Em certa feita, jantamos juntos acompanhados de nossas mulheres e criamos memórias insculpidas em pedra, daquelas feitas para durar. Era a vida nos dando uma derradeira chance de convívio.
Na última vez que o vi, avisei a ele que assim que voltasse de viagem iriamos marcar um assado em minha casa. O assado ficou pendente, Folha se foi, teve a vida ceifada por um facínora que até hoje anda livre pelas ruas. Se foi sem conhecer a sua tão amada Itália, sem realizar seu sonho de morar no Rio de Janeiro, sem se despedir, sem aviso, como um filme que de tão bom não sentimos que logo irá acabar.
No dia de seguinte ao de sua morte fui ao Santuário de Fátima e acendi por sua alma uma vela. Pedi aos céus que consolasse o coração de sua mãe pois não consigo imaginar dor pior do que a de perder um filho, ainda mais um como ele. Meu querido Folha foi silenciado e dessa vez não por um procedimento odontológico falso, dessa vez o silencio não arrancou risadas de ninguém. Folha se foi e deixou o mundo um pouco menos alegre.
Tenho o costume de no aniversário de sua partida rezar por ele uma prece silenciosa e finalizo dizendo a ele que onde quer que ele esteja seguirá sorrindo dentro de nós. Hoje, uso essa crônica para deixar esse recado. Até um dia velho amigo!