AMOR EM TEMPOS DE IA
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Victor F. Campos
5/22/20263 min read


Meu café ainda fumegava na xícara quando abri o caderno de cultura de O Liberal e me deparei com a seguinte manchete no topo da página: vencedora de prêmio Nobel admite uso de IA em livro. A matéria dava conta de que a celebrada escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do prêmio em 2018, teria admitido ter utilizado IA para “embelezar” seus pensamentos quando da criação de suas obras literárias. Aduziu ainda a nobre escritora que a tal ferramenta é usada para “aprofundar seu pensamento criativo”. É de um cinismo absoluto, me desculpem o descompasso, mas não consigo alocar declarações como essas em alta conta. Ao revés, encaro com tristeza e preocupação a naturalidade em admitir isso.
Através dos séculos, desde que a escrita foi inventada a produção literária passou por necessários e óbvios aprimoramentos, ajustes, avanços incontestáveis que nos permitiram ter esse maravilhoso acervo de obras que hoje temos. Entretanto, um elemento permaneceu imutável até aqui, qual seja, a imaginação humana. A capacidade do autor de construir uma ligação direta entre seu pensamento criativo e a pena que ao manchar o papel traduz a ludicidade da criação do escritor. Essa sempre foi a pedra fundamental da escrita. O leitor que se apega a determinado autor o faz baseado nas marcas indeléveis que o escriba lhe deixa através da experiência sensorial contida no ato de ler. Se perdermos isso, o que nos resta?
Penso em Shakespeare escrevendo com auxílio de inteligência postiça, Júlio Verne, Machado de Assis.... Penso em Nelson Rodrigues o maior cronista da história da humanidade que escreveu por quase trinta anos uma crônica por dia. Penso ainda em Rubem Braga o príncipe da crônica nacional se utilizando desse artificio para “embelezar” sua obra. Essa afirmação é de uma cara de pau assustadora.
Todos esses titãs da literatura mundial foram e seguem sendo brilhantes unicamente pelo seu dom divino e pelo exercício de sua criação, nunca por subterfúgios ou modismos. A inteligência sintética não pode ser uma panaceia para todos os problemas da escrita moderna. Nesse ponto, o antídoto se perfaria em veneno. O sentimento não pode ser substituído pelas letras frígidas criadas por uma máquina. O que acontecerá com as cartas de amor? (Ridículas, pois cartas de amor, quando há amor, tem que ser ridículas). Um adolescente apaixonado pela primeira namoradinha do colégio não saberá mais a sensação de debulhar seus sentimentos em um papel amassado e lhe dedicar. O frio na barriga fatalmente acabará. Basta pedir ao computador que lhe construa um poema expressando seus sentimentos e voilá, poema feito. Por outro lado, a jovem donzela não terá como saber se as bonitas palavras foram escritas ou não pelo seu amado. Estou preocupado.
Em amor nos tempos de cólera, livro de Gabriel García Márquez (vencedor de prêmio Nobel sem IA!) O protagonista Florentino Ariza guarda por meio século sua paixão por sua amada Fermina Daza, era um amor proibido que finda por se consumar apenas quando ambos já se encontram em idade avançada. Li o citado romance há mais de dez anos e até hoje não o esqueço. É um livro de um requinte raro que foi embelezado tão somente pela genialidade de seu autor. Vale a leitura. Penso se a escritora polonesa já o leu, é bem provável que sim, poderia ter nele se espelhado.
Não me julguem mal (Ou julguem, a casa é vossa), mas sou purista quanto a esse assunto. Reconheço a necessidade, mas sou totalmente desfavorável ao uso desenfreado especialmente no que concerne as searas criativas e artísticas da natureza humana. Nesse aspecto, considero um triste retrocesso. As bossas artísticas devem se manter livres desta influência sob pena de irremediável decadência.
Uma coisa lhes garanto, as crônicas assinadas por mim serão livres de interferência artificial sempre. Para o vosso bem ou para o vosso mal, querido leitor.
Ps. Atraso, mas não falho. Terça que vem serei pontual.