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A VIÚVA

Descrição do post.

Victor F. Campos

2/23/20263 min read

Não foi a primeira vez que a vi na missa dominical ou talvez eu só esteja sendo traído por um golpe de vista ou de memória, posso estar a confundindo com outra pessoa, ou um súbito dejavu pode ter me ocorrido enquanto fitava por um átimo a personagem desta crônica. A longilínea mulher de olhar sereno, tez impoluta, aparentando ter não mais que quatro décadas de idade, adentrou a basílica santuário caminhando quase como quem flutua, como se seus pés não tocassem o centenário piso de pedra polida. O bem cuidado véu negro que ostentava sobre sua cabeça se impunha como um arauto de sua dor anunciando a dolorosa perda que sofrera. Trazia a tiracolo um casal de pequenos, a menina claramente mais velha era uma cópia sua, já o garoto, mais novo, não possuía seus traços, imagino, deve ter puxado ao falecido. Deduzi que ela teria um trabalho hercúleo para mantê-los quietos durante toda a celebração, desacreditei de sua capacidade de conter as vontades pueris dos infantes. Pobre de mim, homem de pouca fé!

Não poderia estar mais enganado. Iniciada a leitura do evangelho, os dois curumins de pronto se arranjaram na barra do vestido da mãe que parecia controlá-los apenas com o olhar. E quando o ímpeto da tenra infância quase entrava em erupção ela os afagava sempre de voz baixa e eles pareciam entender que talvez ali não fosse o melhor local para apostar quem era o mais veloz. Como se sensivelmente percebessem que a mãe já tinha problemas o suficiente para lidar

Por um breve momento refleti como aquela mulher que se achava claramente em sofrimento ainda arranjava forças para ir ao ato litúrgico com duas crianças de tão pouca idade, ou melhor, o simples ato de ir já denota a fé colossal do seu espirito a procura por alguns minutos de afago, de acolhimento em meio ao mar de dor.

Eu que trazia comigo meu filho pela primeira vez a missa, que durante todo o caminho até a igreja enchi seus pequenos ouvidos com rígidas recomendações sobre conduta e comportamento, eu que ao invés de logo ter me alegrado quando ele demonstrou interesse em me acompanhar me preocupei de pronto com a forma que eu e ele agiríamos, tomei logo de cara uma lição silenciosa da vida. Ao divisar a via crucis enfrentada por aquela senhora, fui tomado pela vergonha. Com apenas uma criança para cuidar, que aliás se comportou como um gentleman, minha mulher nos esperando em casa tendo a fortuna do âmago familiar completo, me senti um arremedo perto da força emanada por aquela mulher de não mais de um metro e sessenta , pequena como todo bom gigante, pensei.

Chegado o momento da comunhão surpreso a vi se levantar, tomar o filho menor no colo, a filha maior em uma das mãos e adentrar a fila para receber o corpo de cristo. Do alto de minha timidez tentei auxiliá-la fazendo-a passar à frente na fila para comungar mais depressa, ela apenas me sorriu de forma frívola e negou a minha oferta de privilégio. Permaneceu em seu lugar na fila, retornou resoluta com a hóstia já nos lábios e proporcionou uma cena inesquecível. Os três ajoelhados, olhos voltados para os céus em prece. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto se perfazendo no único sinal de emoção emanado por ela durante toda a liturgia.

Por quantas vezes vamos as celebrações eucarísticas e não sentimos diretamente a presença de Deus, por quantas vezes as palavras do santo evangelho nos soam apenas como ruídos inteligíveis, por quantas vezes criamos toda sorte de obstáculos para não estar na casa do pai. Nós que nos vangloriamos dos nossos pequenos sacrifícios na quadra quaresmal, mas que por vezes não compreendemos o verdadeiro significado do período.  E ela cujo nome desconheço, ela que tinha todas as razões para abandonar a fé, ela que foi deixada nesta terra com a dura missão de criar sozinha duas crianças, ela que nunca lerá essa crônica, ela que tinha todas as razões para se enfurnar em um casulo de lamentações, me fez sentir, pela sua crença e resiliência um pouco da presença do pai.

Uma feliz quaresma!