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A MORTE DE UM BAR

Victor F. Campos

2/3/20263 min read

Era um bar irretocável, localizado em uma das esquinas mais aconchegantes de Belém suas duas frentes eram circunvaladas por árvores de copas vastas que ofereciam fartas sombras para aqueles que frequentavam aquele hospital de almas. Sua calçada em “L” era uma metamorfose entre as já gastas mesas e cadeiras de madeira e o vai e vem dos muitos transeuntes que diariamente por ali passavam. Um charmoso cardápio escrito em giz recostado em uma das árvores costumava trazer poucas opções, todavia todas muito bem-feitas, é verdade. And last but no least, as ampolas, quase sempre de casco escuro, eram trazidas a mesa em temperatura glacial, ao gosto do bom cervejeiro. Precisa de mais do que isso?

Há quase trezes anos, quando pousei pela primeira vez no já surrado balcão, o bar já contava com mais de uma década de funcionamento tendo já seu próprio ecossistema, aos poucos fui me adaptando a rotina da velha bodega trocando um dedo de prosa com um, tomando uma cerveja com outro, até que certa feita o dono se tornou meu amigo. Passei timidamente a frequentar também em dias úteis, para almoçar, o que me permitiu conhecer a rotina da birosca. Que horas chegava o chato, qual tira gosto saia fresquinho da cozinha, quem era o “flanelinha” de confiança, o melhor garçom e até mesmo ser reconhecido pelo vira-lata que mandava no pedaço, o inesquecível “barriga branca”.

O citado bar, que propositalmente oculto o nome, era um perfeito retrato não só da nossa cidade, mas também do Brasil. Frequentado por todo tipo de gente, não era fato incomum ver gente de boa roupa dividindo o espaço com o maltrapilho que catava seus centavos para barganhar mais uma dose. Quando me tornei “do bar”, título outorgado a mim pelo próprio dono, me senti à vontade para apresentá-lo a amigos queridos, um inclusive, dividia refeição e mesa comigo quase que semanalmente. Aliás, sentávamos sempre na mesma mesa, que já era tida como nossa, era só sentar e o garçom já vinha trazendo dois copos americanos, uma cervejinha e perguntando se queríamos o petisco costumeiro: carne de sol acebolada com macaxeira frita! Era um espetáculo. Carne de sol suculenta e uma macia e dourada macaxeira que ás vezes possuía um suspeito retrogosto de peixe. Otto von Bismarck dizia que leis e salsichas é melhor não saber como foram feitas, nesta lista incluo a citada macaxeira.

Ali pulei carnavais, pre-réveillons, vitórias do time de coração, despedidas de solteiro de amigos queridos, visitas da cegonha e muitas outras datas que possuíram grande importância, mas que não possuem rótulo. Reuni amigos para celebrar e também para contar e ouvir lamúrias. Na mesma esteira, por muitas vezes sentei e bebi sozinho. Aquela mesa, encostadinha na parede logo ao entrar, em incontáveis episódios absorveu meu suor e minhas lágrimas, as tristes e as alegres. Festejei chegadas, lamentei partidas e registrei uma parte da minha vivência entre aquelas paredes surradas pelo tempo.

Após o breve espaço de um entardecer que durou treze anos, ao chegar no bar e me dirigir até a mesa costumeira perguntei, a um novato garçom, onde estava o dono que, inclusive, tinha como alcunha o nome do bar (ou o bar que tinha seu nome?). O copeiro simpático e meio sem jeito me contou que seu único filho havia forçado o pai a vender o bar para cuidar da saúde, haja vista que a rotina ali imposta já não era para ele. Ao notar meu rosto tomado por tristeza e decepção o garçom foi logo me garantindo que nada havia mudado e que agora ele descansaria, o bar não ia fechar. Não discordei apenas assenti com a cabeça. Escaneei o local com os olhos. O bar estava todo pintado, cardápios em Qrcode, cadeiras estofadas, comida a quilo, nem sinal de nenhum dos antigos funcionários ou clientes, como se uma fenda no espaço os tivesse sugado. Em um estalar de dedos mais de duas décadas desapareceram. Realmente o bar não fechou, pior que isso, morreu em vida!