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A MORTE DA IGNORÂNCIA

Descrição do post.

Victor F. Campos

3/31/20263 min read

Trago notícias tranquilizadoras, a ignorância acabou! Não há mais sequer um ignorante em querências brasileiras, já especialistas temos aos montes. Os temas são os mais variados, esporte, geopolítica, economia, mercado imobiliário, vida alheia, enfim! Escolham o tema que lhes aponto um perito no assunto (vida alheia especialmente). E não estou falando que irei encontrá-los em universidades, grupos de estudo, órgãos de classe... nada disso! Eles estão nas esquinas, nos botecos, nas calçadas, sempre ávidos por um comentário superficial com um toque de profundidade. Vale dizer que tal gama de conhecimentos não raramente é extraída de uma rápida conferida no site de busca no aparelho celular, afinal o bom perito deve ter seu material de consulta sempre por perto não é mesmo? Ultimamente tal fato tem se traduzido em tão somente manter o dispositivo com carga. Mas não serei injusto nem sempre o nascedouro do saber desses qualificados comentaristas é o citado site, não! Eles também se utilizam de manchetes (apenas as letras em negrito, claro), postagens em redes sociais e até mesmo o malfadado ouvi dizer. Com essa qualidade de referências e a segurança de tais fontes não há que se questionar os abalizados posicionamentos dessa casta de notáveis. Empenho a minha mais profunda admiração pelo desprendimento desses sujeitos que opinam sobre absolutamente tudo com irrepreensível certeza, desprovidos de nenhum temor em estar se prestando ao ridículo vociferam suas convicções contra qualquer um que ouse delas discordar, ainda que o divergente seja letrado no assunto em voga.

Recentemente, em um determinado círculo social que frequento, estourou um desses debates sobre geopolítica e confesso que possuo uma queda pelo tema, procuro aqui e ali estudar o que ocorre e extraio minhas interpretações de tudo que leio. Pois bem, voltemos ao debate! Os especialistas se digladiavam de modo que era quase possível visualizar seus miolos fritando ao defender suas certezas que se mimetizavam com as letras garrafais dos periódicos vez que de lá foram extraídas. Quando a discussão quase alcançava seu ápice tive a infeliz iniciativa de discordar do mais eloquente dos especialistas do boteco trazendo inclusive as fontes que embasavam minha discordância. Pobre de mim! Sequer consegui completar meu raciocínio. Os gênios têm esse traço de protagonismo mesmo, logo sepultam qualquer oposição e esta encerrado o assunto.

Em outra ocasião, ousei opinar tecnicamente sobre uma famosa ação penal que a época tramitava no Supremo Tribunal e um distinto sujeito, que aparentava não saber se vade mecum era um livro de leis ou um remédio para dor, discordou de mim de forma veemente me chamando de louco. Ele não poderia estar mais correto. Fui inocente em achar que meus quase dez anos de ativa advocacia e de estudos da lei, bem como meus títulos acadêmicos me davam o direito de estar mais certo do que um mal interpretado texto jornalístico. Mais uma vez, pobre de mim!

Confesso a vocês que esses episódios me deixaram retraído quando o assunto é opinar sobre o que quer que seja, tenho muitas dúvidas sobre muitos assuntos, não tenho o dom da ubiquidade que meus pares parecem ter de forma inata. Além disso minha timidez não me permitiria bradar absurdos aos quatro cantos com a certeza de um absolutista medieval, gosto de pensar que tenho uma opinião a zelar que não pode ser gasta com certezas colhidas em árvores duvidosas. Pensando melhor nem sobre o fim dos ignorantes eu tenho segurança, quem sabe não tenham entrado em extinção, mas sim se transmutado em idiotas convictos. Lhes parece plausível afirmar isso?

Por fim, s'il vous plait, não reparem a ironia! Como empedernido ignorante que sou talvez não esteja sabendo lidar com o fato de ser o último de minha espécie.

Ps. Dizem por aí que em breve o vosso cronista passará a fazer suas publicações em um periódico jornalístico na internet. Quem viver verá...